16.9.09

A construção de fragatas em Ovar nos séculos XIX-XX

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2006)
TEXTO: José de Oliveira Neves

O Dr. Alberto Sousa Lamy refere na sua “Monografia de Ovar”:
“No ano de 1887 construíram-se no estaleiro do Cais da Ribeira 18 barcos-fragatas e barcos varinos de diferente tonelagem; o Almanaque Ilustrado de Ovar para 1911 refere 6 construtores navais – Francisco de Oliveira Gomes, João Bernardino de Oliveira Gomes, João Gomes Silvestre, José Gomes Lírio, Manuel Borges e Sebastião Ribeiro; em 1918, foi lançado à água o lugre “Ovar”, construído no estaleiro da Marinha; e, em 1923, José Ferreira Soares fez a última construção para Lisboa de um varino”.


Em 1899 foi lançado à água no Cais da Ribeira, um barco de 70 toneladas, construído no estaleiro de João de Oliveira Gomes Silvestre, por encomenda da Casa Pinto Bastos, de Lisboa”.
Alexandre M. Flores, no seu livro “Almada Antiga e Moderna – Roteiro Iconográfico” editado pela Câmara Municipal de Almada, faz uma grande referência ao nosso citado conterrâneo João Gomes Silvestre, ali conhecido por João “Marcelo”, um dos fundadores dos estaleiros da Mutela, em Almada, na 2.ª metade do séc. XIX.
Eis o que nos diz o escritor a respeito deste vareiro muito conceituado na indústria da construção naval: “Figura ligada à indústria naval da Mutela, contratou operários para o seu estaleiro, oriundos de Pardilhó, Ovar e outras terras.
O estaleiro do João “Marcelo” situava-se entre o moinho de Maré (que muito mais tarde veio a pertencer à Sociedade de Manuel Lino, e onde eram guardados os apetrechos náuticos), o local da ferraria de João Vieira (João Ferreiro), a zona de encalhe das embarcações para docar em cima de picadeiros (raspar fundo e calefetar) e a zona que veio a servir de represa para toros em madeira, de modo a conservarem-se na água”.

Leitão de Barros pintou uma aguarela da doca do estaleiro dos herdeiros de João Silvestre “Marcelo”, obra que foi exposta e premiada na 2.ª Exposição de Aguarela, Desenho e Miniatura – 1916 na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Algumas pessoas e familiares meus que foram fragateiros em Lisboa na 1.ª metade do séc. XX, confirmaram-me que, por volta de 1907, as fragatas eram construídas, em grande parte, em Ovar, recordando-se de nomes como a “Sertório”, “Viriato”, “Benvinda”, “Manuel”, etc.
O principal estaleiro ficava na Ribeira, e o seu dono e construtor era o Silvestre “Marcela”, nome pelo qual era conhecido aqui na sua terra. Depois de construídas, as fragatas eram transportadas para a barra de Aveiro com a ajuda de um rebocador, e, depois de se encontrarem muitas milhas ao largo, seguiam para Lisboa à vela, com uma tripulação de 3 ou 4 homens, conforme fosse o seu tamanho, utilizando mastros próprios diferentes daqueles que se usavam no Tejo. Na barra de Lisboa esperava-as um novo rebocador que as transportava para os estaleiros da Mutela, onde os “Marcelas” acabavam de as aparelhar.

Estaleiro da Mutela ("Mutelo"), Almada (desaparecido com a construção da LISNAVE,
que ocupou aquele e outro espaço da actividade naval
Aguarela de Carlos Pinto Ramos (1931)

Em 1939, Rocha e Cunha escreveu a respeito desta indústria: “Os estaleiros de Ovar e Pardilhó, desde longa data e até há poucos anos, construíam fragatas e varinos para serviço de outros portos, principalmente Lisboa. Concluída a construção, estas embarcações, sumariamente aparelhadas e carregadas com madeira que servia de lastro e dava frete, tripuladas por 3 homens de boa têmpera, em geral ílhavos, aproveitavam a época dos ventos bonançosos do norte e seguiam costa abaixo para o porto do destino. Estas expedições, que por vezes tinham desfecho trágico, eram denominadas “enviadas”.
A descrição feita em 1939 por Rocha e Cunha aproxima-se bastante daquilo que eu ouvi contar pela boca dos fragateiros que nessa mesma época mourejavam nas fragatas e conheciam bem a história das suas embarcações e tudo aquilo que com elas estava relacionado.
Os seus depoimentos vêm confirmar a importância que teve Ovar na construção naval nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, onde se empregava grande parte da população local, cujos salários eram os mais elevados.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/09/construcao-de-fragatas-em-ovar-nos.html

LEIA também o artigo "Construção naval tradicional no lugar da Mutela http://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2014/04/construcao-naval-tradicional-no-lugar.html

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