9.8.09

Madre Rita Amada de Jesus

Percurso de Madre Rita
nas dioceses do Porto, Viseu e Guarda

Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2006)
Rita Amada de Jesus teve uma experiência
religiosa muito ligada à Diocese do Porto.
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Nascida em 5 de Março de 1848 em Casalmendinho, freguesia de Ribafeita, numa família de agricultores com 7 filhos, passou algumas temporadas da sua infância em casa de outras famílias, nomeadamente na de um distinto médico de Viseu, cuja filha a ensinou a ler e a escrever, proporcionando-lhe uma educação esmerada, que muito a ajudou nos seus contactos apostólicos futuros.

De Viseu para o Porto
Apesar de mostrar, desde muito cedo, vocação para a vida consagrada, só aos 29 anos, em 1877, iniciou a sua formação religiosa, como aspirante, no Porto, na Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora (de Calais), poucos anos antes chegadas a Portugal, e que residiam num antigo palacete (“a Casa das Sereias”) ao fundo da Rua da Bandeirinha, 31, sobranceiro à Alfândega do Porto, Religiosas essas a quem chama, nos seus escritos, “Irmãs da Caridade”(1).



Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, no Porto.
(O portal da casa está ornado com duas colunas simulando sereias)

Na foto, restos do antigo colégio de Sanguedo, na actualidade
Dali saiu, ao fim de um ano, doente e insatisfeita, mas mais conhecedora dos regulamentos conventuais, com vontade decidida de concretizar o seu sonho antigo: fundar um Instituto próprio, direccionado para a defesa dos valores da Família e para a formação de raparigas pobres ou em perigo moral.
Em Sanguedo (concelho da Feira), frequentou, durante um ano, como pensionista, o colégio das Religiosas Franciscanas (Associação de Santa Clara)1, de onde saiu com 32 anos.
Foi ainda na Diocese do Porto, a sul do Douro, que passou os anos seguintes, na busca de novos horizontes para a sua missão: em Esmoriz (concelho de Ovar), numa visita ao pároco local, este apresentou-lhe uma senhora que prometia deixar-lhe os seus bens se aceitasse ficar na sua companhia, mas ela rejeitou a ideia. Em Lourosa e em Lamas partilhou, durante largos meses, habitações de famílias locais, donde partia para as freguesias vizinhas em acções de apostolado, serviços esses a que se dedicava desde muito jovem, dada a sua intensa devoção à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus (muito contribuindo para o desenvolvimento do Apostolado da Oração), ao mesmo tempo que promovia a recitação do Rosário e chamava à conversão pessoas de vida escandalosa.
A morte da mãe levou-a de regresso a Ribafeita, mas por pouco tempo.

Uma obra querida por Deus
Acolhida na citada família de Viseu, que todos os anos costumava ir a banhos para a Granja, Rita retomou o caminho do Porto, ali contactando o P.e Francisco Pereira, da Companhia de Jesus, seu confessor quando estivera nas Franciscanas Missionárias, esperando dele um conselho avisado acerca da sua pretendida Obra.
Se no primeiro contacto a opinião do P.e Francisco foi negativa, o que a deixou amargurada, mas em humilde conformação com a vontade divina, num segundo encontro, um ano depois, o mesmo sacerdote afiançava-lhe que essa Obra era querida por Deus. Rita ficou radiante, não lhe faltando o ânimo necessário para iniciar, de imediato, a sua missão.
Após algum desencanto com as autoridades visienses, que não lhe queriam dar crédito, por ser uma mulher do povo, e depois de utilizar alguma diplomacia, em que tiveram acção meritória o Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, e um deputado às Cortes, natural de Viseu (o Cónego Gaudêncio, futuro bispo de Portalegre), conseguiu obter do Governo a necessária licença para a fundação de um Colégio para meninas (14 de Setembro de 1880, dia que passou a ser considerado como a data da fundação da Pia União que, anos depois, na hora permitida pela lei, viria a dar origem à Congregação Jesus Maria José).

De Gumiei a Paramos
O Colégio funcionou primeiro em Gumiei (Ribafeita), durante dois anos, e posteriormente, ao longo de mais oito anos, em Farejinhas, concelho de Castro Daire, para onde se transferiu para evitar a perseguição das autoridades visienses, que não viam com bons olhos uma mulher de 32 anos a orientar um colégio no seu concelho, embora não houvesse, então, em todo o distrito, uma única escola feminina…


Antigo colégio de Farejinhas

Padre Conde
Em Farejinhas, e apesar de idênticas perseguições, e até de provações internas criadas por algumas das suas religiosas, a Obra que Rita sonhara dava passos cada vez mais firmes.
Seguiram-se: em 1880, o Colégio de Tourais (Seia), e em 1890, o de Louriçal do Campo, ambos na Diocese da Guarda, e em 1905 o Colégio do Sagrado Coração de Jesus, em Paramos (Espinho), na Diocese do Porto, ocupando uma casa construída pela Paróquia a cargo do Padre António Rodrigues Conde, natural de Ovar [na foto] e orientada, até 1903, por outra Congregação Feminina); em 1906 o colégio da Lapa do Lobo (Nelas, Viseu) e em 1907 o Colégio de N.ª Sr.ª de Lurdes e o Asilo dos Órfãos, em Castelo Branco. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Entretanto, em 10/5/1902, num período de maior abertura política, a Santa Sé aprovou as Constituições da Congregação (de votos simples de direito pontíficio, mantendo-se, contudo, para pessoas leigas, a Pia União).


A criação do Noviciado em Louriçal do Campo, e a assistência aí prestada pelo jesuíta P.e José Lapa Rodrigues, muito contribuíram para a evolução do Instituto, dando-se a feliz circunstância de esse sacerdote, que ficara depositário do manuscrito autobiográfico de Madre Rita, ter emigrado para o Brasil, após a implantação da República (5/10/1910), e ali ter continuado a prestar assistência espiritual às Irmãs, actualizando os seus Estatutos.

Abertura ao mundo

De facto, em 1911, as religiosas foram obrigadas a deixar as suas casas, de que foram espoliadas pelo governo republicano, tendo a Fundadora providenciado para que as Irmãs mais válidas partissem, em 1912, para terras brasileiras.
Madre Rita Amada de Jesus faleceu na sua terra natal em 6/1/1913, pouco depois da saída do 2.º grupo de Irmãs para o Brasil.


Madre Rita no dia do seu funeral, em 7 de Janeiro de 1913, em Ribafeita.
Os seus restos mortais foram transferidos para o cemitério de Viseu em 17/06/1972
No Brasil, a Congregação – hoje Instituto Jesus Maria José – consolidou-se fortemente, espalhando Colégios e uma Faculdade por diversos Estados da Federação, e alargando a sua acção apostólica por outros países da América Latina (Bolívia, Peru e Paraguai) e da África (Angola, Moçambique e Cabo Verde).

Casa-Geral do Instituto Jesus Maria José em S. Paulo, Brasil

Entretanto reabria sucessivas comunidades em Portugal: Trancoso e Viseu (1934), Paços de Brandão (Noviciado, 1942-1952), Espinho (Hospital em 1949 e Patronato em 1958), Porto (Lar de Santa Rita, 1950 – 1952, e Centro Social da Sé, 1952-1953), S. João de Ver (1952-1953), Ovar (Casa Provincial e Noviciado, desde 1951), Asilo-Creche da Misericórdia de 1952-1957, Jardim de Infância Jesus Maria José desde 1958, Centro de Promoção Social do Furadouro desde 1969, Jardim de Infância Alvorada desde 1978), Coimbra (Lar da Sagrada da Sagrada Família, para estudantes, desde 1954 e Casa de S. José, para o Noviciado desde 1982), Viseu (Lar de Santo António e Centro JMJ de Jugueiros), Paul e Dominguizo (Covilhã), e Alverca do Ribatejo.
Casa da Província Portuguesa do Instituto Maria José, instalada em Ovar, desde 1952

Nos altares

O Processo de Canonização teve a abertura oficial em Viseu em 4/12/1991, sendo enviado para a Cúria Romana em 23/10/1994. Após a aceitação de autenticidade de um milagre acontecido em Franca, Brasil (cura de uma senhora desenganada da medicina), João Paulo II marcou a sua beatificação para 24 de Abril de 2005, o que não aconteceu em virtude da morte do Papa.


Um ano depois, a Diocese de Viseu e muitas outras de Portugal, do Brasil e de outros países, particularmente aquelas onde as Irmãs Jesus Maria José prestam serviços, viveram intensamente esta hora de exaltação, celebrando jubilosamente a liturgia da Beatificação presidida pelo Cardeal D. José Saraiva Martins [foto], um português que é Prefeito da Congregação de Causas dos Santos e que veio de Roma como legado do Papa Bento XVI.

Notas
(1) O governo só permitia, então, a existência de congregações estrangeiras, e apenas as que se dedicassem a serviços de beneficência e à missionação. Só pelo Decreto de 18/4/1901 foi regulada a instituição de associações religiosas, e só quando se destinassem à acção social, ao ensino e à missionação.
(2) Uma das Irmãs do Convento de Sanguedo, falecida depois de 1910, a Irmã Júlia, levou para a sepultura o seu hábito azul, das Irmãs de Santa Clara. (Informação de Justino Francisco Pinto, de Sanguedo).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2006)


Estiveram presentes nas cerimónias da Beatificação, em Viseu, em 28 de Maio de 2006, cerca de vinte Bispos, cerca de centena e meia de sacerdotes e vários milhares de leigos, particularmente oriundos das terras por onde Madre Rita passou ou por onde actuam as religiosas do Instituto que ela fundou em 1880.
A cidade de Viseu viveu intensamente a festa e os seus preparativos, envolvendo não só a Diocese e as Paróquias, como as instituições civis, militares, associativas e de saúde.
Em diversos momentos da celebração esteve bem evidente a dimensão multicontinental do Instituto Jesus Maria José, com a intervenção de religiosas e membros do clero (bispos e sacerdotes), oriundos do Brasil, do Peru, do Paraguai, da Bolívia, de Angola e de Moçambique.
Um grande grupo coral, acompanhado por órgão e por diversos instrumentos, deu brilho aos cânticos litúrgicos, e algumas centenas de escuteiros prestaram serviços na orientação dos participantes.

Madre Alda Mishelin e Irmã Inês, respectivamente Superiora Geral e Superiora Provincial Portuguesa
do Instituto Jesus Maria José ao tempo da Beatificação de Madre Rita

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