1.8.09

Invasões Francesas - Ovar

Ovar no caminho de uma conspiração

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 30 de Março de 1809, 1200 soldados da infantaria francesa, vindos do Porto, entraram na então vila vareira, donde só foram expulsos pelas tropas anglo-lusas 40 dias depois. Do que se terá passado, apenas se sabe o que vem relatado nos estudos dos historiadores locais, entre os quais João Frederico, P.e Miguel de Oliveira, Zagalo dos Santos, P.e Manuel Lírio e Dr. Alberto Lamy.


Alminhas da Ponte, baixo relevo do escultor Teixeira Lopes, na cidade do Porto, onde centenas de pessoas, fugindo das tropas do Marechal Soult, faleceram no desastre da Ponte das Barcas. Ainda hoje os portuenses depositam ali flores e velas acesas em memória das vítimas

Um episódio há que, apesar de ter algo a ver com Ovar, julgamos não ter sido objecto de qualquer abordagem por parte dos citados autores. Encontrámo-lo num trabalho publicado por João Flores da Cunha (“A Conspiração do Porto”, Badaladas, 24/10/2008) no jornal “Badaladas”, de Torres Vedras.
Segundo aquele colunista, o coronel francês Dannadieu, em revolta contra Soult e aliando-se a algumas personalidades do exército anglo-luso, urdiu com o capitão português João Ferreira de Viana, ajudante de ordens do Governo das Armas do Porto, uma estratégia complicada que implicaria a prisão de Soult, a retirada do exército francês para Espanha e a entrega do comando de todo o exército francês ao general Moreau, exilado na América, também ele em conflito com a política de Napoleão.



Ataque ao forte de Grijó, em 11 de Março de 1809, pelas tropas anglo-lusos, sob o comando do General Wesllesley, enquanto o General Hill, descendo a Ria, se posicionava dentro de Ovar, contendo, com o reforço da Brigada de Cameron, o ataque da cavalaria francesa. (Gravura de H.L. Évêque. Foto e dados históricos extraídos de “Os Mártires de Arrifana - Memória da Guerra Peninsular”, 1997, ed. da J.F. de Arrifana)

Eis uma passagem do texto de João Flores da Cunha, onde se enquadra a referência a Ovar:

“Viana decide contactar o exército exilado. Com o pretexto de ir buscar a família que diz saber refugiada a dezoito léguas do Porto, consegue um salvo-conduto que lhe permite atravessar as linhas. Dirige-se a Coimbra onde o brigadeiro António Marcelino da Vitória lhe dá um passaporte a fim de o “livrar da ferocidade das ordenanças”, de forma a poder a chegar a Tomar, onde Beresford o recebe. Contudo, este não se entusiasma com o relato e aconselha o português a regressar ao Porto e voltar com um emissário dos oficiais franceses, com o qual pudesse entender-se. No entanto, dá-lhe por assistente o coronel Douglas que o acompanha até ao quartel do coronel Trant nas margens do Vouga. Viana transmite a Donnadieu as ocorrências e os conjurados nomeiam o capitão Jacques Constantin d’Argenton do 18.º de dragões como emissário. Viana e d’Argenton encontram Douglas perto de Ovar, que os leva até Beresford. Desta feita, o general inglês tem como sério o relato de d’Argenton, mas diz-se sem autoridade para tomar qualquer iniciativa, encaminhando-os para Arthur Wellesley que, entretanto, tinha chegado a Lisboa e assumira o comando do exército, instalando o seu quartel-general no palácio de Calhariz.
Wellington, na sua correspondência, relata a entrevista tida com o capitão d’Argenton, nela vislumbrando que o exército francês se dividia em dois campos: um propunha-se combater Soult pondo em execução o projecto da revolta desde que os ingleses o auxiliassem; o outro, composto pelos amigos de Bonaparte, pretendia impedir que o marechal se proclamasse rei de Portugal. Não se comprometendo, Wesllesley diz precisar de tempo para consultar o seu governo, mas que isto não o impediria de marchar para o norte e em breve estar frente ao exército francês.
O capitão francês e João Viana têm uma segunda reunião com Wellington já em Coimbra. Quando regressa só, ao Porto, d’Argenton encontra casualmente um seu antigo comandante, o general Lefrèbre, que diz dirigir-se para a divisão Mermet. D’Argenton aconselha-o a não o fazer pois seria preso pelas avançadas inglesas e, julgando-o um dos conjurados, põe-no ao corrente das suas actividades. Lefrèbre denuncia a conspiração a Soult. Este, já conhecedor da movimentação dos ingleses, não dá muita importância ao relato do general e limita-se a mandar prender d’Argenton.


General Soult, comandante da 2.ª invasão do exército napolónico a Portugal

Quarenta e quatro dias depois de entrar no Porto [29/3/1809] os franceses abandonam a cidade (14/9/09).
Em Penafiel, onde bivacou, Soult mandou interrogar d’Argenton, que denuncia alguns camaradas e é condenado ao fuzilamento. O coronel Laffite, comandante do seu regimento, receoso de novas denúncias, pois era um dos conjurados que não havia ainda sido denunciado, facilita-lhe a fuga. O capitão d’Argenton refugia-se no meio dos ingleses seguindo depois para Inglaterra. Daí, ou por ver-se abandonado pelos ingleses, ou por remorsos, passa para a França. É capturado e julgado em Vicennes, indicando o nome do português João Viana como conjurado. Ouve, novamente, a sentença da sua condenação à morte e, desta vez, é fuzilado em Grenelle.
Os coronéis Donnadieu e Laffite são mais felizes, escapando ao pelotão de fuzilamento, pois Fouché, o eterno conspirador, intercede por eles.

João Ferreira Viana é promovido de capitão de ordenanças a capitão de linha, tendo sido colocado às ordens do brigadeiro Francisco Colman. Como a de muitos dos verdadeiros patriotas, a memória deste enigmático herói desfez-se no tempo.”
Pode ler-se o texto original em: http://linhasdetorres.blogspot.com


Retábulo das Alminhas de Arrifana,
onde foram mortos 63 cidadãos daquelas redondezas

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA

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