6.8.09

Armando Andrade – Centenário de um artista vareiro

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2008)
TEXTO: Delfina Carmen

Armando Andrade
Falar do Armando não é fácil, pois viveu já há muitos anos.
Mas a sua postura como pessoa não passou despercebida, porque era diferente nas suas atitudes. Um tanto excêntrico, era um homem bom, sempre disposto a ajudar os outros. Muito respeitador, surpreendia pela sua modéstia e pelas suas atitudes de honradez.
Por 1935 vivia em Porto Igreja, S. Vicente de Pereira, freguesia onde nasceu em 19 de Maio de 1908.
Ali conviveu muito com o meu pai, Domingos Fernandes da Silva, pois éramos vizinhos.
Era um bom homem, de grande sensibilidade, mas intranquilo, confiante no seu trabalho, mas infeliz.
De temperamento difícil, foi sempre incompreendido.
Sentia-se um artista (porque o era) e exigia que o tratassem como tal. O que não acontecia, porque as pessoas da terra não eram sensíveis aos seus dotes artísticos. Mas ele desculpava-os, dizendo:
“Coitados, não sabem o que é arte!”. E o meu pai, mais compreensivo, afirmava:
“Este rapaz ainda vai dar muito que falar!”.
Já nessa altura da sua juventude ele produzia trabalhos lindíssimos e artisticamente perfeitos, confeccionados em barro, terra-cota, madeira, etc. Entre eles um par de príncipes, de uma perfeição invulgar!
Casa de Armando Andrade
Fez um trabalho – “O Menino dos Caracóis” – para a família Malaquias: – o busto do Jorge, irmão do cineasta Paulo Rocha, obra que foi muito elogiada pelos críticos de Arte.
Aqueles que o conheciam a sério já o consideravam um artista de génio.
Como era muito modesto, e sem ajudas para se promover (sem mecenas), poucos lhe atribuíam os méritos que realmente possuía. Ele que também não ligava nada ao dinheiro, de tão desprendido que era dos valores materiais, mesmo depois de casado. O meu pai chegou a chamar-lhe a atenção, pois tinha mulher e dois filhos que, por vezes, passavam mal. Até porque, quando se via desanimado com a vida, sem futuro e sem meios de subsistência, ele, que era um temperamental, mostrava-se de mau génio, a ponto de os filhos o temerem.
Os seus sonhos desvaneciam-se, então, e ele desabafava, desiludido:
– “Sou um pobre pinta-ratos…”
O seu génio artístico era, de facto, incompatível com o seu génio temperamental, acontecendo que nem a mulher nem os filhos sabiam quando eram obrigados a tratá-lo por Armando ou por “pinta-ratos”! Dependia do dia, ou mesmo da hora… No entanto, ele adorava a família, brincava muito com os filhos.
Em situações mais críticas, o meu pai intervinha e apaziguava a família. Por isso eles o respeitavam muito.
O rapaz, o Hipólito, é também um grande artista. Da menina não me lembro o nome, mas também não era muito vulgar. (Ele dizia que os nomes dos filhos não eram vulgares, porque eles também não iriam ser vulgares!).
O Armando gostava muito de trovoadas. Sempre que trovejava, fosse de dia ou de noite, quer chovesse ou ventasse, abria todas as portas e janelas de sua casa. Os filhos, amedrontados, pediam que ele as fechasse, mas o Armando não os ouvia…. Cantava, ria e chorava… Não sabíamos porque o fazia!
Num dos serões que passou em nossa casa a jogar cartas com o meu pai, o Armando aproveitou uma das folhas de papel onde apontavam os jogos, e fez, a lápis, um retrato do meu pai, que ainda guardo, encaixilhado, com muito gosto e carinho [na imagem, Domingos Fernandes da Silva (Calrote), desenho de 1935].
Numa noite, em nossa casa, o Armando zangou-se com o meu pai, por causa do jogo. Para o castigar, pintou a sua caricatura na portada de sua casa, para que o meu pai, que morava em frente, ao abrir a janela do seu quarto, visse aquela figura feia pintada em branco e em grande dimensão. E não é que o meu pai adorava ver-se assim retratado na portada do Armando, num desenho que durou anos?
Entretanto, o meu pai faleceu em 1939, e ele saiu de S. Vicente, indo trabalhar para a França, espalhando a sua arte pelos quatro cantos do mundo. Algumas das suas obras figuram no Museu de Limoges onde, sempre que podia, ia ver os seus trabalhos, anonimamente, pois não queria honrarias. Passava muitas horas a admirar esses seus “filhos”, como ele dizia, e voltava para Portugal, feliz!
Trabalhou para a Vista Alegre, onde fez trabalhos notáveis, inclusivamente para o Brasil, onde
“Lavadouro nos Moinhos dos Pelames”, em Ovar
Óleo de 1963, de Armando Andrade, Colecção do Museu de Ovar
foi figura de jornais.
Acabou por ser reconhecido como Artista. Mas nunca como merecia. Talvez pela sua timidez.
Na realidade, o Armando era um homem diferente. Um homem de sonhos. Bem sonhados, mas não totalmente realizados!
Sempre pronto a ajudar as pessoas como se cumprisse um dever, foi humilde até na própria morte, ocorrida em 24 de Fevereiro de 1986.
Desejo, Armando, que não tenhas, agora, sonhos irrealizados. Tu que cumpristes a tua missão como homem e como Artista!

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2008)


Armando Andrade
Primeiro o artista, ou o barro?

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Um filão de barro branco – o puríssimo caulino donde nascem as porcelanas da Vista Alegre – marcou, ainda criança, a vocação artística do Armando.
Ali, em S. Vicente de Pereira, Ovar, cada bocado de barro era atracção e desafio permanente à habilidade das suas mãos frágeis, donde saíam figuras as mais diversas, cheias de realismo e beleza.
Nascido há um século – em 19 de Maio de 1908 –, cedo se fez ao trabalho na empresa de transportes A Boa Nova de Ovar, de António Ferreira da Costa, do lugar da Herdade, na sua terra natal, onde aprendeu a arte da pintura em chapa.
O seu gosto pela cerâmica de tal modo sensibilizou os encarregados dos caulinos que o convidaram a transferir-se para a Vista Alegre, onde se iniciou no desenho, na pintura e na cerâmica artística, vindo a fazer estágio em Limoges.

Barreiro de S. Vicente de Pereira de onde se extraiu o caulino
que deu origem a preciosas peças de porcelana, muitas das quais
saídas das mãos de Armando Andrade

Barreiro de S. Vicente de Pereira
(Imagem de satélite - Google Earth)

Barreiro de S. Vicente de Pereira de onde se extraiu o caulino (1960)
A partir de 1938 laborou, sucessivamente, nas Fábricas de Cerâmica artística do Carvalhido (V.N. Gaia), Sacavém (1942-1945), Soares dos Reis (Gaia) e Lusitânia (marginal do Douro, Porto). De 1946 a 1948 trabalhou em sociedade com Nelson Ribeiro, mas, por segurança económica, preferiu trabalhar, de novo, como contratado, na Vista Alegre (1947-1949) e seguidamente na Artibus (Aveiro, 1949-1959?), Raul da Bernarda (Alcobaça), SPAL (Alcobaça, 1968-70), Garranchos (Aveiro) e Primagera (Aradas, Aveiro).
Prato artístico (Reis de Portugal) da autoria do ceramista/escultor
Armando Andrade, destinado ao Presidente da República Óscar Carmona 
Pelo caminho, algumas estadias no Brasil, onde deu brado o restauro de uma peça de cerâmica do espólio museológico do rei D. João VI. Além de notáveis obras em cerâmica, deixou valiosas peças a óleo, aguarelas, desenhos, medalhas e estátuas. Os seus 75 anos foram celebrados em 1985, sob a tutela da ADERAV, com uma Exposição orientada pelo Dr. Amaro Neves, Coronel Cândido Teles e Dr. Énio Semedo, Exposição que esteve patente primeiro no Museu de Aveiro e depois no de Ovar, e que era acompanhada por uma revista-catálogo com o testemunho de vários colaboradores.

Na Revista anual “Dunas – Temas & Perspectivas”, n.º 6, editada pela Câmara Municipal de Ovar em 2006, o Dr. Amaro Neves evocou a sua figura, sugerindo que a proximidade do seu centenário despertasse a consciência dos vareiros para “uma justa evocação do artista, na sua terra”.
Oxalá a Exposição que está a ser preparada pelo Museu de Ovar, e aberto até 30 de Junho, cumpra este desiderato, avivando a memória de um grande Mestre que nos deixou, em Aradas, Aveiro, em 24 de Fevereiro de 1986, aos 77 anos, e a quem Ovar dedicou uma rua na Cova do Frade, a norte da Rua João Corte-Real.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2008)



No centenário de um Artista vareiro

TEXTO: Maria Dulce Vieira

A pedido do Director deste jornal, ouso escrever algumas palavras sobre Armando Andrade na data do 100.º aniversário do seu nascimento, em S. Vicente de Pereira, deste concelho de Ovar, em 19 de Maio de 1908.

Pintura de Armando Andrade. Ao fundo,
Capela da Vista Alegre

De facto, eu não quero – nem posso, de forma alguma – perder a oportunidade que me é dada para falar de alguém que, para mim e para a minha família, foi sempre considerado um Homem bom e um excepcional Artista.
Neste mês de Maio de 2008, comemorativo da efeméride, é preciso reavivar a sua memória, num comprimento de onda que permita fazer ouvir mais longe o que foi e o que continua a ser, através da obra que nos legou, o Ceramista e Pintor Armando Andrade.


Armando Andrade e o seu filho Hipólito,
dois Artistas plásticos entre paisagens inspiradoras

Um dos meus amigos, que prezo muito porque, além desse atributo, é meu filho, sempre que me vê a escrever, costuma dizer- me, à laia de pergunta desmotivadora: – Para que se publicam coisas que não conseguem dizer nada de novo e, portanto, nada que o mundo já não saiba?
Neste caso concreto, eu, que tive o privilégio de conhecer, desde criança, o Armando Andrade, não posso calar as minhas impressões sobre ele, repetindo exaustivamente, e sem sombra de exagero, que se tratava de um artista com um talento admirável e inato para o desenho, a pintura e a escultura.
Com apenas 6 ou 7 anos de idade já era admirado pelas obras que saíam das suas mãos pequeninas, quer em esculturas, feitas com o caolino extraído nos barreiros de S. Vicente de Pereira, vizinhos da sua casa, quer em retratos, já então muito apreciados.

Como referi em texto publicado na revista “Reis”, da JOC/LOC de Ovar, de 2008, o meu Pai, fundador dos transportes de passageiros “A Boa Nova de Ovar”, contratou-o diversas vezes, a primeira das quais ainda rapazinho, para pintar as carroçarias dos seus autocarros, montados na nossa oficina, em S. Vicente, no lugar da Herdade. Com a ajuda da espátula, dos pincéis, ou da pistola, os materiais manuseados por si produziam, como que por magia, trabalhos magníficos.
Contratado pela fábrica de cerâmica Vista Alegre, foi residir para Ílhavo, onde se dedicou exclusivamente à pintura e modelagem, e de tal modo manifestou as suas aptidões que os seus patrões o enviaram para Limoges, em França, a fim de frequentar ateliês de Arte, o que contribuiu para aperfeiçoar, ainda mais, a sua sensibilidade artística.
Por meados de 1984, na companhia de sua irmã Margarida, que continuou a viver em S. Vicente, visitei-o em Esgueira, já no seu leito de morte. Foi a última vez que tive oportunidade de lhe testemunhar o meu apreço, estima e consideração, o que reitero agora, na comemoração centenária do seu nascimento.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2008)

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