15.7.09

Pesca no Furadouro nem sempre é milagrosa

TEXTO: A. Pinho Nunes

No verão passado aproveitei todos os bocados para ir ao Furadouro. E foram bem empregados! Na verdade, o mar esteve excepcional: água tépida, muito peixe, muita gente. Por exemplo, num domingo de Agosto, à tarde, contei, com muita paciência (que, às tantas perdi…) uns 3000 e tal carros. Carapau à fartura, como não era costume. O mar, sem ondas, andava lá longe…
Entre uma banhoca e umas raquetadas de «punho-ball» com o P.e Manel, lá íamos nós ajudar à rede com outros banhistas. Era desporto e boa vontade. Só!
O arrastão que mais trabalhou foi o «VAMOS ANDANDO». Foi nesta rede que mais puxámos. A princípio, parecia que a pele das mãos ficava para trás. Depois, habituámo-nos. E apareceram alguns calos, que não fazem mal nenhum. Eu já os conhecia, mas da enxada, noutros tempos.
De baixo para cima, toca a puxar; de cima para baixo, de mãos a abanar e torna a puxar… Na ponta da corda, está o ti Zé a enrolar a meada. Vira-se para mim e diz: – Atão ainda num le deram uma caldeirada? – «Não senhor!, respondi-lhe eu. Nem pensar nisso! Eu ando aqui só por desporto!»


O P.e Manel puxava do outro lado, e também lhe falaram nisso.
Mas, um dia, de que me lembro eu? Muito simples: ir com eles, no barco, ver como era.– Mas a remar!, disse logo – Sim, senhor! – disse um pescador. Fale ali com o arrais, que ele deixa-o ir.
Assim foi. Fiquei sentado a meio dum remo, e lá fui puxando, à procura do ritmo. Éramos uns 15. À medida que nos alongávamos pelo mar fora, o Furadouro aparecia-me duma forma diferente em todo o seu conjunto.
Os pescadores nem sonhavam que ia ali um padre! Acho eu que não. Se nem eu lho disse nem eles mo perguntaram…
O mar estava chão e a água azulinha que metia raiva. Dava vontade de experimentar dali um mergulho!
Os pescadores tagarelaram todo o tempo. E não ia ali nenhum santo… Por isso, as conversas tanto iam a direito como atravessadas, sem mal nenhum…
Lá longe, largou-se o saco. O pescador manda-lhe a jaculatória: - «Fica-te com Deus!»
Demos a volta. A chalaça continuou. Mas parou no momento em que eu comecei a ouvi-los dizer: - «Quem é que alumia?» É este…, é aquele… Começa um a tirar a boina, outro também, e, nisto, sai cantoria:

«Bendito e louvado seja
É o Santíssimo e o Sacramento da Eucaristia
No fruto e no ventre sagrado
Da Virgem Puríssima
Ó Santa Maria».


Escondi, como pude, a minha surpresa, e comecei também a cantar. Ao jeito deles, é claro, pois aquilo, para mim, estava a sair muito estropiado e fora do ritmo. Era ao ritmo dos remos e ao ritmo das suas almas simples!
Viemos a cantar até à borda, só parando quando o barco tocou em terra. Dei um salto cá para fora, agradeci, e só fiquei com pena de a pesca, depois, não ter sido nada milagrosa…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Março de 1977)

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