6.4.09

O Cine-Teatro que (não) temos

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2002)
TEXTO: Fernando Pinto

Parece mesmo um filme: a cidade de Ovar continua a não ter uma sala de cinema!!! O velho Cine-Teatro, encerrado “há séculos”, está a cair aos poucos. Se não fossem o Cantar os Reis, o Festival da Canção, o Ovarvídeo e o Festovar a ressuscitá-lo nos últimos anos, os vareiros nunca lá punham os olhos. (A companhia de teatro CONTACTO, felizmente, já arranjou palco, já não precisa dele para realizar mais uma edição do Festival de Teatro de Ovar.)



Como escreveu o encenador Manuel Ramos Costa, no boletim n.º 6 da CONTACTO, “a bomba rebentou em Julho durante a realização do Festival da Canção de Ovar, que foi (caso se mantenham os resultados das vistorias e a trajectória dos interesses imobiliários pouco importa!) o último dos incontáveis eventos artísticos e culturais que nele se fizeram ao longo de décadas. Paciência, quem viu, como eu vi, demolirem o velho Teatro Ovarense, já nada lhe dói que possa ver delapidada toda a Ovar antiga. Por mim até podiam destruir a nossa Igreja, a nossa Câmara, os Passos todos, o chafariz e as fontes para construírem tudo de novo em betão, conforme os arbítrios da modernidade e todo esse mau gosto dos nossos arquitectos. Não me bulia o coração. Neste capítulo, Ovar tem o que merece e ponto final”.


Ouvem-se algumas vozes críticas, como a deste homem do teatro, mas tudo continua na mesma nesta terrinha banhada pelo mar, mas sem sal.

30/12/1944: a inauguração
Folheando o arquivo deste jornal, encontrei dois textos muito interessantes relacionados com este edifício. No “João Semana” de 4 de Janeiro de 1945, li que “foi inaugurado o Cine-Teatro, propriedade da Empresa de Melhoramentos de Ovar, Ld.ª. A inauguração deu-se no dia 30 de Dezembro, sendo precedida de uma sessão de abertura realizada às 4 horas da tarde. (…) Fazemos votos para que a nova casa de espectáculos corresponda às necessidades de diversão de uma terra como a nossa, que quer seguir na esteira das suas tradições de trabalho, honestidade e fé. Do bom critério da Empresa é de esperar que haja selecção no elenco dos espectáculos, pondo de lado tudo quanto seja condenável sob o ponto de vista moral e educativo. Parece-nos que isso mesmo é aconselhável no interesse do bom nome e vantagens económicas do Cine-Teatro”.

Quase o argumento de um filme…
No “João Semana” de 15 de Junho de 1983, António Dias, funcionário da Igreja Matriz contava: “Foi na década de 40 que se iniciou a construção do novo cinema de Ovar. À volta dela surgiu uma história que, pelas suas circunstâncias, podemos considerar lamentável. Era então pároco de Ovar o P.e Boaventura Valente de Matos. Ao iniciarem-se as obras para o novo cinema, o Sr. Augusto Pinho dirigiu-se ao pároco, informando-o da obra que se ia iniciar. Seria uma construção relativamente baixa, que não ‘ensombraria’ a Igreja. Perante isto, o referido pároco concordou com o novo empreendimento. Todavia, em fins de 1943 a obra tinha tomado proporções que contrariavam ostensivamente a promessa feita ao P.e Boaventura.

A partir daqui, formou-se uma comissão chefiada por Francisco Belo, que, tentando zelar pelos interesses da Paróquia, apresentou ao Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, uma exposição bastante sintética, em que era posto o problema, e em que se pediam providências.
A consequência imediata foi a nomeação do P.e Boaventura, em Fevereiro de 1944, para a freguesia de Maceda, decisão desta que ele não acatou, preferindo ser colocado como professor no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Por deliberação de D. Agostinho, foi então nomeado para a freguesia de Ovar um sacerdote de reconhecida experiência, o P.e Crispim Gomes Leite, que fora Pároco e Presidente da Câmara de Gondomar.
A sua primeira preocupação foi mostrar a inconveniência da construção do cinema naquele local, conseguindo embargar as obras. No entanto, A Sociedade empenhada no empreendimento também não cruzou os braços, procurando solucionar o problema a seu contento. Foram contactados o Bispo de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, e o Cónego Dr. Manuel Valente, naturais de Válega. Querendo ouvir a opinião de D. Agostinho, fazem com ele, de imediato, uma visita ao local, concluindo ser já tarde demais para travar a obra. Ela tinha já atingido tais dimensões que, no seu entender, era inaceitável qualquer ideia de retrocesso. E até porque, concluíam, ‘a Igreja não pode impedir o progresso’. Entretanto, a contrução do Cinema retomara o seu ritmo, sendo feita a sua inauguração em 30 de Dezembro de 1944. Perante tal desfecho, o P.e Crispim, que viera para Ovar, a pedido do Prelado, para tentar evitar a construção, passou a interrogar-se: – Qual o meu papel no meio de tudo isto? E, resolutamente, acabou por pedir a dispensa do seu cargo, pois jamais se sentiria bem com a sua consciência, ele que tanto se esforçou pela defesa da Igreja e pelo progresso de Ovar.
Nomeado Pároco da Sé do Porto, regressou, anos depois, a Gondomar, terra da sua predilecção, a que se devotou de corpo e alma, e donde partiria ao encontro de Deus. O tempo passou. Mas ficou uma história que eu entendi ser meu dever contar. Até porque é uma história amarga, que nunca mais esquece a quem, amando a Paróquia, a viveu muito por dentro.”
Parece o argumento de um filme este relato de António Dias. Agora pergunto: para que serve, hoje, aquele monumental edifício? Para fazer sombra à Igreja?


Um cinema à moda antiga
Os dias correm e o triste destino do Cine-teatro parece já estar tratado há muito.
Paulo Rocha, realizador do filme “Mudar de Vida” – rodado na Praia do Furadouro, na década de 60 – numa conversa com Pedro Costa, que veio a lume no livro “Utopia do Real”, confessou:
“(…) Às vezes, o filme volta à zona onde foi filmado, no Furadouro. Há lá um daqueles cinemas à moda antiga e ainda vêm os descendentes, os netos das pessoas que estão no filme, é uma berraria. Passam o tempo a dizer: ‘Olha a minha avó’. Não se ouve uma palavra do diálogo e cantam as canções em coro com os actores do filme”.



Paulo Rocha, figura central do Cinema Novo português, já deve sentir saudades da “berraria” que se ouvia no Cine-Teatro quando ele cá vinha assistir à passagem desta sua obra. Agora só escutará o murmúrio das paredes gastas e húmidas daquele edifício construído “à moda antiga”. É uma vergonha para os vareiros não poderem assistir a um bom filme “em casa”. Assim, com tudo a escassear nesta nossa rica cidade, os jovens são muitas vezes obrigados a… mudarem de vida! Onde é que eu já vi este filme?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 2002)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/07/o-cine-teatro-que-nao-temos-texto.html

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