31.7.09

A arte do “Ferro Forjado” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/1995)
TEXTO: António Valente de Almeida

Os nossos Serralheiros Civis, mais conhecidos, antigamente, por Ferreiros, criaram fama dentro e fora de portas.
A sua competência, aliada à sua honradez, foi a principal causa de tanto sucesso no seu mister.
Aqueles que tive a honra de conhecer – e ando aqui desde 1920 – deram-me a convicção de que assim era não só pelo seu trato pessoal, mas também por tudo aquilo que eu ouvia a seu respeito: serem fieis seguidores de seus antecessores, realizando verdadeiras obras-primas que ainda hoje, apesar de mal tratadas, extasiam os nosso olhos. Seis oficinas, cada uma delas regida pelo seu proprietário-trabalhador, foram autênticos atelieres dessa nobre arte, escolas onde uma juventude ávida de saber do ofício se preparava para a vida.
Por curiosidade, aqui deixo os nomes dos proprietários das oficinas de Serralharia que conheci, bem como a sua localização:
Guilherme Nunes de Matos, na Rua Alexandre Herculano n.º 83-85; José António Valente (Ti Zé Nau), que, além de varandas e engenhos, fazia os gradeamentos das campas do cemitério, e seu sobrinho Evaristo Valente, na Rua Alexandre Herculano, 106; Francisco Oliveira Dias, na Rua José Falcão, 107; Manuel Paciência, no Largo 1.º de Dezembro (São Miguel); Francisco Sevintes, na Rua Manuel Arala (entrada onde hoje é a “Garrafeira”); Francisco Matos, na Rua Alexandre Sá Pinto (Rua das Ribas) 85.
O pai do Ti Zé Nau, de nome José Valente, executou o artístico portão do cemitério de Ovar (na foto) enquanto o seu neto Evaristo Valente foi o executor do portão lateral.
Com ferramentas rudimentares – forja, accionada por um fole, martelo, malho, talhadeira e um gancho, a que chamavam “gato” –, fizeram aquilo que hoje contemplamos: um maravilhoso património que constitui um verdadeiro Museu a céu aberto, com peças as mais simples e as mais complicadas, a exporem-se aos curiosos ao longo das ruas da velha urbe vareira, nos balcões das varandas, nos peitoris das janelas, nas grades de portadas, nos resguardos de vitrais, e até nos gradeamentos do nosso Campo Santo. Para não falarmos dos rendilhados portões do Cemitério e das duas capelas laterais da Igreja, estes fabricados por artistas de fora.


Ao contemplarmos este espólio precioso, sentimos, em alguns casos, uma sensação de horror, por verificarmos que a seu lado se constroem autênticos mamarrachos, não tendo os seus construtores e os seus proprietários sabido conjugar com gosto as duas épocas, deixando um mau exemplo aos vindouros.
Lamento ainda não se notar, por parte de quem deveria ter mais responsabilidade na matéria, o devido empenho na salvaguarda desse património histórico e cultural.

Se Ovar se ufana de ser a Cidade do Azulejo – e até propaga este título como cartaz turístico –, com a mesma propriedade se deveria ufanar de ser considerada também a Cidade do Ferro Forjado, Arte que saiu das mãos de filhos seus, muitos dos quais, não cabendo em sua própria casa, se espalharam, mundo fora, levando consigo o nome da sua terra e capitalizando fama e algum proveito.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 1995)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/07/arte-do-ferro-forjado-em-ovar.html

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