20.5.09

O Brasão de Ovar

TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A um pedido nosso, o Dr. Almeida Fernandes teve a amabilidade de nos enviar um pequeno mas valiosíssimo texto sobre a iconografia do Brasão de Ovar.
Para além de rectificar algumas ideias feitas a que este respeito têm sido veiculadas pelos historiógrafos das coisas vareiras, este trabalho vem clarificar – definitivamente? – alguns pontos obscuros sobre as próprias origens de Ovar.


Há muito, tenho para mim – sobretudo pela dupla e plena coincidência dos dois pormenores iconográficos do brasão (o castelo, enorme e maciço, e a Virgem Maria) com os documentos do meu reparo – tenho para mim, dizia eu, que o congeminador iconográfico do brasão viveu, o mais tardar, no séc. XVIII, e devia ter conhecido esses mesmos documentos, embora os interpretasse, para aquele ponto de vista, mal. Mas o efeito é o que nos interessa, e ele nos descobre as causas, esses mesmos documentos, mal interpretados toponímica e historicamente.
– Um deles [documentos antigos, mal interpretados toponímica e historicamente] é de 1026 (Dipl. et Ch., n.º 261), relativo à “villa Kabanones et Muradones”, dois locais que qualquer despreconcebido tomaria logo por conjuntos, tanto mais que a “Muradones” se não chama “villa”, deixando logo entrever que era parte da “villa” Cabanones. Hoje, não se acha Muradões; e até ao séc. XI-XII “Ovar” não passava de nome do rio (que hoje chamam Cáster, de “Castro”, certamente, como já em “João Semana” expliquei): penso que isso – tantos são os documentos para tal ilação – não pode ser desdito.
O congeminador iconográfico sem dúvida conheceu o documento, e viu a palavra “muradão” como aumentativo de “murado” (de “muro”) – aumentativo que não é (como o não/são “aldeão” , “vilão”, etc.): mas deve ter visto isso, que é o que importa. Daí os “muradões” castelejos do brasão. (Deve notar-se que propriamente Ovar, o núcleo, antes da sua expansão, seria Muradões, que foi substituído pelo nome do rio, Ovar; e que “Muradões” é, perfeitamente, um contraposto a “Cabanões”, que também não se deve considerar aumentativo).

– Os outros documentos explicam, quanto a mim, a Virgem no brasão.
O congeminador iconográfico, certamente, conheceu a designação “Santa Maria de Ovar” algumas vezes dada (séc. XI-XII) à “Terra de Sancta Maria”:
– 1117 “província (território) de Sancta Maria de Ovar” (Part., IV, n.º 33), para a freguesia do Mato, do concelho de Arouca, mas então na dita “terra”;
– 1119 “território Santa Maria de Ovar” (Part., IV, n.º 108) para S. João da Madeira, respectivamente dos arquivos de Paço de Sousa e de Rio Tinto:
e pensou que “Ovar” era, aí, a vila, actual cidade (sendo só o nome do rio – que, de facto, passa na actual Feira, núcleo sede da Terra de Santa Maria).
Para mim, isto explica os “muradões” e a “Santa Maria (de Ovar)” do brasão – plena, coerente e documentalmente.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho e 1 de Agosto de 1995)

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