20.5.09

Ingleses desembarcam no cais do Puxadouro?

TEXTO: A. Pinho Nunes

Agora que está em curso um projecto de revitalização do cais do Puxadouro, em Válega, vem a propósito referir o que o “Guia de Portugal”, 3ª edição, da responsabilidade da Fundação Gulbenkian e com apresentação do historiador Sant’Anna Dionísio, com data de 1984, diz sobre o título em epígrafe, quando se refere a Válega. É o seguinte:

“O General inglês Hill efectuou aqui, em 10 de Maio de 1809, o desembarque de uma força ligeira de 1500 homens, com o objectivo, não conseguido, de cercar as tropas francesas de Soult da linha do Vouga, nesse mesmo dia atacadas pelas avançadas de Wellesley”.
Na “Monografia de Ovar”, o Dr. Alberto Lamy escreveu:
“Durante a ofensiva britânica, uma divisão da Infantaria do exército de Wellesley, comandada pelo major General Rowland Hill, chegou à cidade de Aveiro no dia 9 de Maio de 1809 e, seguindo pela Ria, desembarcou em Ovar, provavelmente no cais da Ribeira, ao romper do dia 10, com a finalidade de cortar a retaguarda aos franceses que retiravam pela estrada de Oliveira de Azeméis”.
Em “Datas da História de Ovar”, em publicação no “João Semana”, o mesmo Dr. A. S. Lamy diz:
“A 29 de Março de 1809 Soult ocupou a cidade do Porto e, a 30, a infantaria francesa ocupou Ovar com 1200 homens. Ao romper do dia de 10 de Maio, no Cais da Ribeira, desembarcou uma Divisão de Infantaria do Exército de Wellesley, comandada pelo Major General Rowland Hill, no total de 3000 soldados”.

Perante estas duas versões, é razão para perguntar: em que documentos se apoiam os respectivos autores?O P.e Miguel de Oliveira, que é de Válega, poderia ter «puxado a brasa à sua sardinha”. Mas não. Referindo-se à 2ª Invasão Francesa, num artigo publicado no ADA, nº 43, em 1945, sob o título “A Campanha de Entre o Douro e Vouga”, escreve com mais cautela:
“Quanto ao local do desembarque, não encontrámos informação precisa. Há quem afirme que foi o cais do Puxadouro, em Válega (e cita o “Guia de Portugal”). Afigura-se, no entanto, mais provável que fosse o cais da Ribeira em Ovar”.
Quase a terminar o seu artigo, o P.e Miguel de Oliveira conta que um grupo de franceses saiu de Arrifana e fez uma incursão em direcção a Válega. E diz: “Em Válega, há a tradição de que estes franceses foram avançando até perto da ria e perderam-se num sítio chamado de Cabedelo, onde uns heróis locais, refeitos do primeiro susto, facilmente “deram cabo deles”.
Na origem do topónimo não está, porém, a força da tradição, mas sim a do latim. Com efeito, “Cabedelo” significa “pequeno cabo”.
Vejamos, finalmente, o que diz o historiador valeguense sobre um canhão que apareceu em Válega e está agora a “proteger” a sede da Junta de Freguesia de Válega:
“Num lugar do extremo norte da freguesia, junto a Ovar, ficou abandonada uma pequena peça de artilharia que se diz dos franceses e que em 1941 foi removida para o Adro Velho”.
É o célebre canhão de Válega que, apesar de obsoleto e enferrujado, ainda serviu a “gente ousada mais que quantas”, isto é, à estudantada, em “guerras” de fronteira entre Válega e Avança. Protagonista principal desses combatentes, da parte dos estudantes de Válega, era o Dr. Pereira que, em Coimbra, já era conhecido como o “Pereira das forças”…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Junho de 2002)

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