22.4.09

Relógios “de gaiola” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2005)
TEXTO: Mota Tavares

Não é por mero acaso que se encontra, na região de Aveiro, uma razoável quantidade de relógios – de torre e de caixa alta – dos séculos XVIII e XIX. Não podemos dissociar desta realidade o facto de existirem bons portos de mar, utilizados pelo comércio internacional desde os alvores da nossa nacionalidade.


O antigo relógio da Igreja (1782) está a ser recuperado por Áureo Neves, de Ovar

Da importação da relojoaria estrangeira à fabricação nacional não mediou muito tempo. Logo que os nossos artistas tiveram ao seu alcance as matérias-primas necessárias e suficientes, aplicaram o seu engenho na produção artesanal, pois nesta e noutra arte os portugueses nunca deixaram os seus créditos por mãos alheias.

O mesmo relógio na actual fase de recuperação
Temos, assim, na região, a mistura das máquinas importadas com as de fabricação nacional, de igual qualidade e mais baixo preço. E se aludimos à qualidade é porque os relógios que conhecemos, reconhecidamente portugueses, nada ficam a dever aos seus congéneres franceses ou ingleses.
É englobado nesta análise que figura o relógio “de gaiola” apeado da torre da igreja paroquial de Ovar , feito em Aveiro, em 1782, por João Rodrigues Branco – IOAM RODRIGVES BRANCO OFES EMAVEIRO.ANNO.1782. Assim está gravado na estrela medial que suporta e centra a roda contadora das horas (na foto).

Trata-se de uma máquina da segunda fase da construção dos relógios “de gaiola”, pois já é usado o bronze polido em lugar do ferro, que se utilizou até ao séc. XVII. A perfeição dos acabamentos denota um cuidado acrescido, em ordem à regulação, precisão e durabilidade da máquina. Usa o pêndulo de Galileu, adaptado à relojoaria pelo sábio holandês Huygens, a partir de 1657.Esta máquina, que se encontra numa dependência da igreja paroquial, é digna de ocupar melhor lugar, com direito a preservação e possibilidade de visita pública, já que se trata de um exemplar único e pertencente a um património a preservar, assinado por um relojoeiro da região, o que lhe confere um valor nacional.
Infelizmente, em Portugal tem presidido, em muitas paróquias, o princípio de “não trabalha, atira-se fora e compra-se uma modernice sem valor futuro”. Não se imagina a quantidade de máquinas de relojoaria férrea que têm sido vendidas a quilo para a Alemanha, França, Inglaterra, etc. Infelizmente, estou a escrever com conhecimento de causa. Assim tem desaparecido o nosso património.
Outro relógio “de gaiola” de Ovar, mas este preservado e a trabalhar – e em bastante bom estado –, é o da Capela de St.º António. Somente por dedução, baseada na análise do pêndulo, poderemos arriscar que poderá ser de fabricação nacional.
Tem gravado o ano de fabrico: 1846. Uma aturada investigação, que ainda não se fez, poderá levar a conclusões, desde que se encontrem documentos. A máquina, por ser mais moderna, é mais elaborada do que a da igreja paroquial, executando mais funções. É um lindo exemplar, bastante bem cuidado, o que se deve à dedicação e entusiasmo do senhor Carlos Barbosa, da Comissão da capela, a quem os ovarenses devem estar agradecidos, pois verifiquei ser um amante do património da sua terra no respeitante à capela e ao seu relógio.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 2005)

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