15.3.09

A Procissão dos Passos há 100 anos

TEXTO (recolha): António Mendes Pinto

Há 100 anos atrás [1903], o semanário regenerador vareiro “A Discussão”, ao falar da Procissão dos Passos, não fazia qualquer referência a Nossa Senhora das Dores e ao Sermão do Encontro, o que confirma a informação do P.e Manuel Lírio (“Os Passos de Ovar”) de que nem sempre se fazia essa tocante cerimónia.
O citado semanário fala de “um verdadeiro dia de Primavera”, da Irmandade, que à Procissão “procurou dar, como efectivamente deu, a maior imponência e luzimento”, e dos “comboios tanto ascendentes como descendentes que vinham completamente apinhados de povo, que, espalhando-se pela Vila, dava a esta um “tic” desusado e festivo”.
Vale a pena recordar alguns pormenores do evento tal como o repórter os retratou: “findo o sermão do Pretório, saiu o préstito religioso da Matriz cerca das 4 horas da tarde, o qual, percorrendo o costumado itinerário com uma ordem e decência como já há muito não víamos, oferecia um aspecto verdadeiramente majestoso, ao deslizar, com magnificência, por entre duas alas compactas de povo.




À frente do préstito, cuja direcção era confiada a José Marques e Drs. Pedro Chaves, Cunha e Lopes, seguia o alçado e o estandarte, às guias do qual pegavam os nossos amigos Drs. Sobreira e Descalço, e Revs. Sanfins e Gomes Pinto, e, após o andor com a magnífica e rica imagem do Senhor dos Passos, empunhava a vara de juiz o Rev.º, Pároco Dr. Alberto de Oliveira e Cunha, trajado com as suas vestes de capelão-fidalgo da Casa Real.
Sob o pálio, o Rev.º Francisco de Oliveira Baptista conduzia a santa relíquia, seguindo no couce da Procissão a Banda Marcial Ovarense que, durante o trajecto, tocou mimosas marchas fúnebres.
Fechava o préstito uma força de Infantaria 24, sob o comando de um alferes.
A Procissão recolheu já depois das 6 horas, sendo pregado em seguida o sermão no Calvário.
O orador, o Rev.º Alberto Cid, a quem estavam confiados os sermões, proferiu dois excelentes discursos.
As diferentes Capelas dos Passos conservaram-se expostas, durante o dia, à veneração dos fiéis, ornamentadas com elegância.”

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 2003)


A devoção dos Passos em Ovar vem do séc. XVI (desde 1572, segundo se tem escrito), começando, pouco depois, a ter visibilidade através de uma procissão solene que passava por diversos lugares evocativos dos Passos da Paixão, primeiro em capelinhas portáteis, de madeira, e, quase dois séculos depois, nas monumentais capelas de pedra e talha dourada espalhadas pela cidade, desde o Pretório, na Igreja Matriz, até à do Calvário. (P. B.)

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