3.3.09

Camelos na costa de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2007)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Por incrível que pareça, na segunda metade do século XX andavam camelos carregados com louças da Vista Alegre a passarem junto à Costa de Ovar, como se caminhassem pachorrentamente pelas areias escaldantes dum deserto inóspito e despovoado!...

Foi através de uma conversa telefónica mantida há pouco tempo com o ilustre historiador e escritor portuense Prof. Dr. Helder Pacheco que tive conhecimento desse facto! Interessei-me bastante por investigar aquele acontecimento do passado, desconhecido por mim e creio que pela maior parte dos vareiros, mas graças à gentil e prestimosa colaboração da Dr.ª Filipa Quatorze, ilustre directora do Museu da Vista Alegre, em Ílhavo, com costado vareiro, a quem, desde já agradeço, tudo se tornou mais fácil. As informações que me enviou são extraídas do livro: “A Fábrica da Vista Alegre – O Livro do seu Centenário”, escrito em 1924 por João Theodoro Pinto Basto, bisneto de José Ferreira Pinto Basto, que em 1824 fundou aquela famosa unidade industrial.
O motivo da sua implantação em Ílhavo talvez se deva ao facto de estar perto do porto de Aveiro e das doze concessões de minas de caulino que a Vista Alegre registara em S. Vicente de Pereira (Ovar) e em Valrico (Souto da Feira).
“O barro é conduzido em carros para os depósitos da fábrica, no “Puxadouro de Válega”, perto de Ovar, junto da Ria de Aveiro, e de aí, nos seus barcos para a Fábrica”, – descreve João Theodoro Pinto Basto no citado livro do seu Centenário, mencionando ainda, além de outras curiosidades:
“O transporte das louças foi desde o princípio um problema importante. Não se sabendo empalhar a louça, como depois pela prática se aprendeu, esse transporte era difícil, pelo risco da fractura dos produtos, principalmente devido aos maus caminhos e aos carros não terem molas.
Até Aveiro os produtos da Fábrica eram conduzidos em barcos e dali para as províncias sobre animais, por almocreves e vendedores ambulantes.
Para Lisboa e Porto, como as quantidades a transportar eram grandes, seguiam em navios.
Como, porém, os navios tinham por vezes dificuldades de sair pela barra de Aveiro, mandaram vir camelos (de que eram condutores o “Carocho” e o “Campanha”). Os camelos vinham até Lisboa e Porto. Para este último destino os camelos faziam a condução de Ovar a Gaia em linha recta pelos areais da costa, indo a louça e os vidros até Ovar pela via fluvial. A passagem dos camelos foi então objecto de grande curiosidade das povoações por onde transitavam. O episódio do povo de Condeixa, por ter abandonado a Igreja durante a missa, e a censura em que incorreu por parte do seu pároco, ainda corre na tradição daquela povoação. Mais tarde, quando a linha férrea de Lisboa ao Porto se completou, os camelos só faziam conduções de lenhas para a fábrica.”
Continuando com a sua narração no Livro do Centenário, diz-nos João Theodoro Pinto Basto: “actualmente [refere-se a 1924, ano em que escreveu o livro], a louça é transportada em caminhões-automóveis para Aveiro.
A passagem do caminho-de-ferro por Aveiro, derivando-o para o litoral e desviando-o da linha natural de Águeda, Albergaria e Oliveira de Azeméis, por onde seguia a estrada real, foi em grande parte promovida por José Ferreira Pinto Basto, filho do fundador da Vista Alegre, que tinha o mesmo nome do pai, instando com José Estêvão, oriundo de Aveiro, para que lutasse nesse sentido”.

Ao lermos estas passagens de “O Livro do seu Centenário”, escritas por um bisneto do criador da Vista Alegre, concluímos que Ovar teve um papel preponderante no fabrico das famosas porcelanas desta Fábrica, visto que este concelho foi, durante muitos anos, o principal fornecedor da matéria-prima.
Quanto à passagem de camelos “de Ovar a Gaia em linha recta, pelos areais da costa” (certamente a partir da Ribeira ou do Carregal), isso terá constituído, na época, o que hoje designamos como um apreciável cartaz turístico da nossa terra, o que certamente terá espantado muitos mirones, tal como aconteceu com o povo que saiu da missa em Condeixa, no séc. XIX, deixando o pároco incomodado, e merecendo dele uma censura, acontecimento que em 1924 ainda era recordado na tradição popular daquela localidade!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2007)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/03/camelos-na-costa-de-ovar-texto-jose-de.html

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