2.2.09

O Professor Baptista – Exigente e disciplinador

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça
Antigamente era assim: os alunos quando entravam para a escola não sabiam se nela ficavam até completar a sua escolaridade obrigatória. Eu, por exemplo, por força do sistema, fui aluno, por ordem cronológica, das professoras D. Palmira Freire de Liz e D. Benilde Figueiredo, ambas na Olaria, ficando, por último, nas mãos do senhor professor Baptista, na Escola Conde de Ferreira (escola do Castelo).
Era inegável que este educador tinha fama de mau, mas não o era. Era simplesmente rigoroso, exigente e disciplinador, não admitindo sornices. Com ele, tinha-se mesmo que aprender, pois não poupava esforços para que esse objectivo fosse atingido.
Ainda hoje recordo, e já lá vão tantos anos, as aulas de História, para além de outras, evidentemente. Encantava a forma como descrevia tantos feitos do nosso glorioso passado que, nas suas palavras, parecia adquirir uma grandeza ainda mais vasta. Nessas lições, nenhum de nós perdia uma palavra que fosse proferida pelo nosso inesquecível mestre. Era magistral nesta matéria e enorme o seu poder de transmitir. Empolgava-nos.
Com ele, só não aprendia quem fosse madraço ou falho de inteligência.

Um passeio pela mata

Gostaria, mesmo sem coordenação, recordar alguns pormenores que me marcaram pela singularidade do seu conteúdo.
Vejamos: num certo dia, comunicou-nos que no dia tal iríamos dar um passeio, claro está, a pé, até ao Furadouro, mas através da mata. Na data aprazada, aí fomos nós com o senhor Professor, de sapatilhas – hoje seriam ténis – e com um pequeno lanche, através dos pinhais, em direcção à Mata da Bicha. Durante o percurso foi-nos transmitindo os seus conhecimentos de Botânica e os benefícios que nos eram fornecidos pelas árvores que nos envolviam.
Era visível o entusiasmo de todos nós nesse memorável dia, que terminou na praia do Furadouro.
A propósito, tenho-me lembrado muitas vezes da expressão usada pelo senhor Professor Baptista para classificar a areia da nossa praia: – é tão limpa, tão limpa, que podemos deitar-nos nela com o nosso melhor fato, sem corrermos o risco de o sujar. (As palavras “poluição” e “ecologia” estavam a dezenas de anos de terem, como hoje, uma vital importância.)
Outro pormenor de que alguns ex-alunos seus ainda vivos se recordarão por certo: do lado sul da Escola Conde Ferreira, havia um espaço de terra que foi transformado em jardim e cujo arranjo foi confiado aos alunos, que se esmeravam, numa salutar competição, para tornar o canteiro ao seu cuidado o mais vistoso.
Gerou-se entre todos um gosto especial pelas flores, bem patente nos canteiros do jardim a que nos referimos.
Havia um, no entanto – maior, redondo –, que era, de facto, o melhor tratado. Era por nós conhecido pelo canteiro do Praça (António de Oliveira Praça, filho de um conhecido e conceituado mercantel de peixe do Furadouro).

Agora, um pormenor que diz bem do nível do Sr. professor Baptista: Há tempos, ao ler um jornal diário do Porto, deparámos com um artigo onde se recordava a competência deste nosso mestre.
O articulista, censurando a falta de conhecimentos de Português de alguns locutores da Rádio e da TV, a propósito de expressões erradas que utilizavam com inusitada frequência, dizia, a propósito: – Se tivessem sido alunos do senhor professor Baptista, os seus conhecimentos não lhes propiciariam dizer tais asneiras!Em síntese, era isto o que dizia o Telmo Ribeiro Arez, o dito articulista, cujo nome de imediato nos recordou um Chefe da Estação dos Correios da Rua Alexandre Herculano, desta cidade. Trata-se de um seu filho, médico, que viveu em Ovar. Não sei se terá até nascido aqui. A sua mãe também era, ao tempo, funcionária dos Correios, juntamente com o seu marido, o senhor Arez. Gente boa, de origem goesa, cremos, e que ainda hoje é recordada.

Uma homenagem em falta...

Para finalizar, quero penitenciar-me por não ter levado por diante uma ideia que durante anos me acompanhou: homenagear o inesquecível professor, juntando à sua volta, num almoço de confraternização, muitos daqueles que ele ajudou a formar com o seu saber, que repartiu tão prodigamente por todos.
Pensei na homenagem, tinha possibilidades de concretizar a ideia servindo-me das páginas do “Notícias de Ovar”, a que tinha todo o acesso. De várias realizações em que, com outros, me envolvi, falhou essa, que poderia ter lançado. Acredito que, com esta confissão, estarei perdoado. Mas teria sido bem melhor ter realizado o que pensei. Ainda hoje, quando me lembro do grande mestre, não perdoo a mim mesmo essa falta.
Breve biografia
do Professor Baptista

António Augusto Correia Baptista nasceu a 3 de Outubro de 1891, nesta cidade, onde faleceu a 30 de Março de 1973.
Era filho de Francisco Correia Baptista, fragateiro, e de Ana Moreira. Órfão de pai ainda criança, teve, naturalmente, muitas dificuldades em conseguir a formação escolar que lhe desse acesso a uma profissão para a qual sentia especial tendência – o ensino.
Casou, em 1913, com Maria Palmira dos Santos Amador. Professor primário (emérito, segundo o historiador Alberto Lamy),exerceu o magistério durante 44 anos, a maior parte do tempo na Escola Conde Ferreira, com aulas de manhã e à tarde. Época muito difícil para os professores, por mal recompensados no trabalho exaustivo que desenvolviam.
De salientar, a actividade e o empenho que punha na preparação de concorrentes ao Magistério Primário, a operadores dos CTT e a telefonistas desta ou outra empresa...
Este parágrafo justifica-se porque foi realmente avultado o número de pessoas que recorreram aos seus conhecimentos literários para a entrada em lugares onde o acesso não era nada fácil.
Depois de ter leccionado História e Geografia no Colégio Júlio Dinis, em Ovar, aqui fundou, em 1918, com o P.e Manuel Rodrigues Lírio e outros, o Colégio Ovarense, muito contribuindo para o desenvolvimento intelectual dos jovens vareiros desse tempo.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2003)

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