9.2.09

Família Ferreira Meneres de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (1/10/2002)

TEXTO: M. Pires Bastos


Uma carta que recebemos a propósito do texto “Família Meneres visita Ovar” publicado no “João Semana” de 15/8/2002, e relacionado com a visita a Ovar do Eng. Cabral Meneres, residente na capital, mas oriundo da cidade do Porto, dá-nos o ensejo de clarificar alguns dados biográficos dos beneméritos António Ferreira Meneres (pai e filho), naturais de Ovar e origem de uma família ilustre.
Esses dados clarificadores retirámo-los das respectivas certidões de baptismo, que nos foram cedidas por Manuel Cascais de Pinho, e por uma carta que nos foi enviada de Lisboa, em 23/3/1982, por uma descendente dos dois protagonistas desta história (sua bisneta e neta, respectivamente), e são confirmados pelos retratos de um deles, o pai, existentes um na Casa-Museu da Ordem Franciscana de Ovar e outro na Ordem da Trindade, no Porto, e pela referência ao retrato do segundo, o filho, que esteve exposto na Ordem da Trindade, mas cujo paradeiro se desconhece hoje.

António Ferreira Meneres (pai)


OS RETRATOS

António Ferreira Meneres (pai) 

Um retrato de António Ferreira Meneres (Pai) que, até ser colocado na Casa-Museu da Ordem Terceira, se encontrava na sacristia nascente da Capela do Calvário, últimas das artísticas capelas dos Passos de Ovar, e que aqui reproduzimos, tem a seguinte legenda: “Ao Insigene Bemfeitor António Ferreira Meneres que dotou a Igreja desta Villa d’Ovar com ricas alfaias. Falleceu no Porto a 21 de Abril de 1860”. É assinado por J. Alberto Nunes Pinto, no Porto, e foi feito no Porto em 1861, por encomenda da Paróquia de Ovar. Anos mais tarde, a Ordem da Trindade dedicou-lhe um quadro idêntico, mas tendo no peito as insígnias daquela instituição, de que também foi destacado membro e grande benfeitor. (Na “História Documental da Ordem da Trindade”, por B. Xavier Coutinho, 1974, vem registada essa homenagem).

Assento de Baptismo (14 de Agosto de 1808)
Segundo a certidão de Baptismo, António Ferreira Meneres (pai) nasceu em Ovar a 12/8/1808 e foi baptizado dois dias depois. É filho de Francisco Ferreira Meneres e de Ana de Oliveira.
Se o apelido Ferreira lhe vem do avô paterno, Bernardo Ferreira, casado com Joana de Oliveira, do Seixal da Arruela, não é explícita a origem do apelido Meneres, já que também não era usado pelos avós maternos, Manuel de Oliveira Luzes e Antónia de Oliveira, da Rua do Pinheiro da Arruela. Nem o usavam os padrinhos, António de Oliveira Luzes, da Rua do Cruzeiro da Ruela, e Maria, filha de João Pereira Gomes, da Rua do Pinheiro da Ruela, nem as testemunhas, José Rodrigues da Graça Pombo e João de Oliveira Dias (Livro B-45 de Baptismos de S. Cristóvão de Ovar – Anos 1805 – 08, f.ª 321v.º, Arquivo Distrital de Aveiro).

Assento de Casamento de Domingos Ferreira com Theresa Ferreira (19/9/1739)
“Aos dezanove dias do mes de Setembro de mil setecentos e trinta e nove annos de manha nesta parochial Igreja de San Christovam da villa de Ovar feitas primeyro nella as tres canonicas dennunciações matrimoniais na forma do Sagrado Concílio Tridentino e Constituições do Bispado, sem resultar impedimento algum canonico em presença de mim o coadjutor o Licenciado Manuel da Costa Ruella e das testemunhas abaixo assignadas se casaram por palavras de presente in facie Eclesiae.
Domingos Ferreira filho de Manuel Ferreira e de sua mulher Francisca de Oliveira já defuntos com Thereza Ferreira filha de Joam Ferreira já defunto e de sua molher Esperança Ferreira, todos da Rua dos Ferradores desta freguesia. E logo lhes dei as bençois matrimoniais na forma do costume e por ser verdade fiz [este assento] que assinei com as testemunhas abaixo era ut supra.
O coadjutor o L.do Manuel da Costa Ruella
Francisco Pereira Anador
Ventura Dias de Resende”
À margem: Domingos Ferreira com Thereza Ferreira
Arquivo Dist. de Aveiro
Ovar c-77 fl.ª 79

Segundo Arada e Costa (“Lembrando Dois Beneméritos”, em “Notícias de Ovar” de 19/8/1982), este primeiro Ferreira Meneres, “nascido e criado ali à entrada da Rua da Oliveirinha, foi novo para o Porto”. (…) É de aceitar a tradição oral que o encaminha, desde a sua chegada ao Porto, para o ramo vinícola, onde prospera, a ponto de se tornar um reconhecido benemérito daquela cidade (Ordem da Trindade, de que foi Irmão Terceiro, e Igreja de S. Nicolau).

Assento de casamento de António Ferreira Meneres (pai), em 23/11/1828, com Maria de Jesus (Maria de
Oliveira Luzes no assento de Óbito) em Ovar, em 23 de Novembro de 1825
Em Ovar, dotou a Igreja com um guarda-vento e com um artístico presépio de António Teixeira Lopes, com oficina no Porto (mais tarde em Gaia, na Fábrica das Devesas), e deixou ao Hospital de Ovar (hoje Escola dos Combatentes) avultadas quantias, e à Irmandade dos Passos preciosas alfaias.
Diz João Frederico (“Memórias e Datas para a História de Ovar”): “O nosso culto religioso perdeu nele um beneficente abrilhantador. Este homem aventuroso não só tinha singulares aparências mas ainda a grandeza de alma e as sólidas virtudes de verdadeiro cristão”.

António Ferreira Meneres (filho)

Segundo o assento de baptismo, António Ferreira Meneres, filho de António Ferreira Meneres e de Maria de Oliveira Lírio, da Rua das Figueiras (actual Rua Dr. José Falcão), nasceu em 26/4/1830 e foi baptizado a 28 do mesmo mês pelo Coadjutor José de Santo Inácio e Sousa.
Os avós paternos são os citados Francisco Ferreira Meneres e Ana de Oliveira, da Rua do Pinheiro, e os maternos Francisco Pereira dos Santos e Antónia de Oliveira, da Rua das Figueiras. Foram padrinhos o P.e António Ferreira, por procuração de António André Godinho, e a avó materna, sendo testemunhas o P.e João Carlos da Costa Nunes e Manuel Francisco da Fonseca Bonito (Arq. Dist. de Aveiro, Baptismos Ovar 1829-33, cota n.º 52).


Fotos de Márcio Santos,
de Castelo Branco

Elucida-nos sua neta D. Maria Vitória Cabral Ferreira Meneres, em carta que nos enviou em 23/3/1982, a nosso pedido, que este seu avô foi o fundador da empresa de vinhos do Porto António Ferreira Meneres, há anos extinta, e que casou em Cedofeita, Porto, em 9/2/1863, com Isabel Maria da Cunha, de quem teve vários filhos.
Distinguido por D. Luís I com os títulos de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, (Decreto de 26/1/1878), e de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real (Alvará de 10/1/1887) e com Carta de Brasão de armas emitida a 20/12/1887.


Armando de Mattos, em “Brasonário de Portugal”, Livraria Fernando Machado, Porto, 1940, na página 167, sob o n.º 679, faz a seguinte leitura do brasão:

“Ferreira – Meneres – Partido: I de oiro, um caduceu de vermelho; II de azul, uma cornucópia de prata, lançando uvas e moedas de oiro”.

Descrição das armas novas de António Ferreira Meneres (filho) - Um escudo partido em pala: na 1.ª, em campo de ouro, um caducéu vermelho com duas serpentes da sua cor, e na 2.ª, em campo azul, uma cornucópia lançando uvas e moedas de ouro, tendo por suportes dois grifos de ouro. Timbre: a cornucópia deitando moedas de ouro.



Sobre as benemerências de Ferreira Meneres (Filho), afirmava o historiador ovarense João Frederico Teixeira de Pinho: “No coro da Igreja, que é regular e modesto, figura um pequeno órgão oferecido, em 1862, por António Ferreira Meneres, seguidor das pisadas de seu pai, cuja memória assim vai honrando”.

Benemerência  de António Ferreira Meneres (filho) para o Hospital de Ovar

Faleceu no Porto, havendo Missa de 7.º dia e responso em Ovar em 24 Setembro de 1888, e exéquias solenes em 29/11/1888 na Igreja da Trindade (Porto), de cuja ordem foi dirigente e benemérito.
Ver "Os Ferreira Meneres de Ovar (pai e filho) Irmãos Terceiros da Ordem da Trindade (Porto)"

Os descendentes

José Manuel F. Bessa, descendente de António
Ferreira Meneres, a viver na Rússia
Dos filhos do casal António Ferreira Meneres (filho) e de D. Isabel Maria da Cunha, casados na Igreja de Santo Ildefonso em 9/2/1863, destacamos o primeiro e o último:
António, com duas filhas (Eugénia e Lurdes, esta já falecida, com numerosa geração),
e Eugénio Ferreira Meneres, nascido em Cedofeita (Porto) e casado, em 25/2/1897, em Santa Isabel, Lisboa, com Maria Vitória Cabral Teixeira de Queiroz, filha do Par do Reino Cons. Basílio Cabral Teixeira de Queiroz e de Elvira Lobo Teixeira de Queiroz, da Quinta do Mirante, no Porto. Deste casal houve 3 filhos: Basílio, falecido em criança, Eugénio Luís Cabral Teixeira de Queiroz Ferreira Meneres, engenheiro agrónomo, casado e, entretanto, falecido, e Maria Vitória Cabral Ferreira Meneres, a nossa informadora, que nos esclarece ainda:
"As famílias descendentes legítimas dos Ferreira Meneres são, actualmente, representadas por nós, Cabral Meneres, e pelas primas Meneres Borges, Meneres Bessa e Meneres Caldeira".

Outros Meneres

Existe uma outra família que usa o apelido Meneres (Clemente Meneres) que nada tem a ver connosco, nem descende dos meus antepassados de Ovar – Ferreira Meneres”.
Segundo M. Antonino Fernandes em “Carvalhos de Basto” (vol. VIII, 1998), pág. 454 e segs., e a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. XVI, pág. 918-919), os Carvalhos Meneres, Pinto Meneres e Fonseca Meneres, por exemplo, descendem de Clemente Meneres, nascido em 1843 na Casa da Cruz, Feira, e falecido no Porto a 27/4/1916, senhor da Quinta do Romeu (Mirandela), adquirida a partir de 1874, depois de comerciar no Brasil e no Porto, e de sua mulher e prima D. Maria da Glória Guimarães.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 2002)


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Nota:
Dado que este tema tem suscitado bastante interesse por parte dos nossos leitores, o texto original tem vindo a ser enriquecido com novos elementos, alguns enviados por José Manuel F. Bessa (descendente de António Ferreira Meneres, hoje a viver em Moscovo), a quem agradecemos a cedência do quadro com a foto de António Ferreira Meneres (filho) e o brasão de armas aqui editados.


A propósito do Porto Menéres de 1845


Vinho Porto Menéres (1845)
A propósito da garrafa de vinho Porto Menéres de 1845 aqui apresentada, o nosso leitor Jorge Braga, da Maia, Porto, dá-nos algumas achegas muito curiosas relacionadas com a sua paixão pelo colecionismo:
- Possui vários exemplares de garrafas iguais à que apresentamos na foto;
- São medalhadas em exposição no Brasil;
- Foram recolhidas quando um incêndio destruiu, em 1955, os armazéns da firma Ferreira Menéres, situados do lado sul do Douro, a 100 metros da ponte da Arrábida, e que passaram para a firma Companhia Arrozeira Mercantil)
- Estão na posse de Jorge Braga, que as recebeu do seu avô, que teve um jaguar SM1034, de há mais de 100 anos, carro que, depois, esteve na posse de Fernando Abreu, de Amarante, e que hoje se encontra recuperado.
- Há 30 anos, Álvaro Malaquias, de Ovar, quis comprar uma dessas garrafas por 50 mil escudos, mas o dono só vendia por 100 mil, pois colecionadores lhe diziam que cada garrafa valia 500 contos ou mais…

1 comentário:

Teresa Coelho disse...

"As famílias descendentes legítimas dos Ferreira Meneres são, actualmente, representadas por nós, Cabral Meneres, e pelas primas Meneres Borges, Meneres Bessa e Meneres Caldeira".

E ainda, Menéres de Campos: descendentes de Estefânia Amélia Menéres Caldeira, mãe de Maria da Glória Menéres de Campos de Almeida Ribeiro, cuja filha, Maria Fernanda Menéres de Campos de Almeida Ribeiro, natural de Coimbra e residente em Lisboa, ainda é viva!!