20.1.09

Maria Piqueira – A parteira do povo

TEXTO: José de Oliveira Neves

Há pessoas que nascem predestinadas para determinadas vocações cujo exercício normal só é acessível a quem possue estudos académicos. Não conseguindo concretizar esses objectivos por falta de recursos financeiros, essas pessoas são obrigadas a fazer outros trabalhos para sobreviverem!...
Nas décadas de 30 a 60 do passado séc. XX, houve em Ovar uma mulher sem meios para poder estudar e exercer medicina na legalidade, mas que, apesar disso, foi uma competentíssima parteira do povo. Sem curso nem diploma, era muito procurada para ajudar as parturientes a “darem à luz”, especialmente as da classe média e as mais desfavorecidas. Mas, para além do seu jeito peculiar para prestar auxílio às futuras mães, também tratava as entorses, traumatismos, distensões musculares e doenças do peito das senhoras!...
Grande parte da gente do típico bairro do Lamarão veio ao mundo ajudada pelas mãos de Maria Piqueira, que também era muito solicitada para assistir a partos nos lugares e aldeias em redor, como Ribeira, Marinha, Arada, Válega, S. João, Guilhovai, Sobral, etc…

Maria de Jesus Oliveira (Piqueira) nasceu em Ovar em 1897, teve 14 filhos, e era lavadeira de profissão. Faleceu no Lamarão, na rua Dr. Cunha, n.º 112, em 4 de Janeiro de 1976, em casa da sua filha Lúcia de Oliveira Cruz, com quem viveu os últimos tempos da sua vida

Nos anos 30 e 40 já existiam em Ovar parteiras diplomadas, como a D. Maria Lé e a D. Guilhermina, a segunda das quais muitas vezes recorria à Piqueira do Lamarão para colaborar com ela. O mesmo acontecia com alguns médicos, que a aconselhavam às suas clientes que estavam prestes a ser mães. (Era no tempo em que as mulheres tinham os filhos em casa, a mesma casa onde, depois, os criavam, e da qual muitas vezes partiam para a sepultura.)
Por isso, ainda hoje muita gente da minha geração, ao passar em certas ruas da nossa terra, dizem com ternura e com o olhos humedecidos, apontando para o local:
– Eu nasci e morei ali, naquela casa! Eu sou desta rua!...Ultimamente, a sociedade tem passado por grandes transformações – umas boas, outras más!... No que diz respeito aos bebés, hoje eles não vêm ao mundo em casa das suas mães, e muitos deles nascem nas localidades dos seus pais, onde foram gerados…
Quero aqui prestar a minha homenagem à sua vocação para a causa nobre de ajudar ao nascimento de crianças.
E lamento que hoje, ao defender-se a legalização do aborto, esteja a estimular-se o aparecimento de vocações “especializadas” em destruir a vida ainda no embrião!...
Tristes sinais dos tempos!...


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2007)

Sem comentários: