7.12.08

São Goldrofe em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/1993)
TEXTO: João Alves das Neves

No estudo que consagrou ao Mosteiro de São Pedro de Folques, inserto no volume Santa Cruz de Coimbra – do século XI ao século XX (Coimbra, 1984), enumera Monsenhor A. Nunes Pereira a existência de 4 imagens de São Goldrofe.
A mais conhecida é, naturalmente, a da igreja matriz de Folques, mas há também a da capela do Senhor da Agonia (em Arganil), outra na sacristia da igreja de Nossa Senhora da Paz, no lugar de Moinho da Mata (Montemor-o-Velho).

Curiosamente, o grande sacerdote, historiador e artista não menciona a de São Donato (de Ovar) no referido estudo, mas já o havia feito numa carta publicada n’A Comarca de Arganil (n.º 2699, de 20/XI/1940). E ao conversarmos há poucas semanas, sobre o caso, logo Mons. Nunes Pereira nos remeteu para o Inventário Artístico do Distrito de Aveiro, onde há um pormenorizado verbete sobre a capela de São Donato e da sua imagem de São Goldrofe. E com essa escassa bagagem lá fomos recentemente, a fim de nos certificarmos se havia ou não o nosso São Goldrofe de Ovar
Existe, sim, e tivemos a oportunidade de o conhecer, depois de um contacto inicial com o Departamento de Turismo ovarense, onde uma simpática funcionária nos declarou nunca ter ouvido falar do santo da nossa terra. Felizmente, vimos uma “História de Ovar” e pedimos-lhe que nos deixasse procurar, e ambos encontrámos rapidamente o procurado São Goldrofe, de São Donato. A seguir, numa estante, descobrimos mais 2 “histórias” da região e achámos novas referências ao santo arganilense.
Só nos faltava conversar com alguém que nos fornecesse mais pistas – e assim conhecemos o Sr. Padre Manuel Pires Bastos, que no folheto “Igreja Matriz de Ovar – Arquitectura e Obras de Arte” dedica a sua atenção também à capela de S. Donato. E, num dia chuvoso, localizámos o templo, que estava fechado, mas que pudemos fotografar. Foi um encontro emocionante com este às vezes citado mas pouco conhecido
São Goldrofe, cuja imagem está hoje num nicho da fachada da capela do lugar de São Donato, que pertence actualmente à freguesia de São João, no concelho de Ovar.
De resto, as informações são mais amplas e seguras no Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Aveiro (Zona Norte), coordenada pelo Padre Prof. Dr. A. Nogueira Gonçalves, segundo o qual a antiga capela de São Donato foi demolida em 1906 (há inscrições de 1578, 1692 e 1783) e a nova veio a ser erguida noutro lugar próximo, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. De acordo com o referido “inventário”, a única escultura antiga é a de São Goldrofe, que colocaram no nicho da frontaria; é da oficina de Coimbra, de calcário, dos meados do século XV. Representa-o de barba comprida, cabelo farto, gorro na cabeça, vestido de túnica e de comprido tabardo que quase oculta aquele, bordão em T na direita, na esquerda o livro fechado. Este vestuário aparece correntemente nas representações masculinas e principalmente nas dos eremitas. A escultura de Folques (Inv. Art. Dist. Coimbra, pág. 16, est. 39) apresenta-o de túnica. São Goldrofe foi prior, e provavelmente fundador, do mosteiro de Arganil – Folques, nos fins do século XI.
Do verbete, que é razoavelmente extenso, destacamos ainda a passagem em que o douto professor Nogueira Gonçalves assinala que a escultura “ovarense” terá vindo, com base em informações de pessoas da região, duma antiga capela que estava no sítio de São Silvestre, lugar de pinhais, onde parece haver restos de alicerces. O que de verdadeiro haja nisto não o podemos saber.
Há que indagar como é que o culto de São Goldrofe chegou a Ovar e às demais terras da região – e esta pergunta também poderá ser feita relativamente ao lugar da Póvoa (“três léguas distantes de Lisboa”), de Montemor-o-Velho, de Coimbra, de Campo de São Martinho (Póvoa de Lanhoso) e de outros lugares onde a imagem de São Goldrofe acedeu aos altares. Histórias que temos de documentos através da História…Como faremos a seguir, a propósito das terras ovarenses.

O culto a São Goldrofe foi devidamente anotado e documentado, em terras ovarenses e adjacentes, por vários historiadores da região, esclarecendo o P.e José Ribeiro de Araújo, no livro “Poalhas da História da Freguesia e Igreja de Ovar”, que, “entre o burgo de Ovar e São Donato medeia a distancia de cerca de 4 Km., antigamente de maus caminhos, desagradáveis ao piso. Este facto fez dizer ao povo, em frase petrificada, para indicar uma distância grande de um ponto para o outro, o seguinte: “Ui! Ele mora lá em São Guelindrofe!”.
Foi São Donato o primeiro padroeiro – acrescenta J. R. de Araújo –, mas sucedeu-lhe em 1623 ou já antes São Goldrofe que o povo por corrupção pronunciava São Guelindrofe. A imagem deste santo, de pedra lioz, existe muito bem conservada”.
Por sua vez, o P.e Miguel de Oliveira acentua, em “Ovar na Idade Média” (1967): “Depois de ter sido orago da ermida e de ter legado o seu nome ao lugar, São Donato viu-se substituído na devoção popular por São Goldrofe, outro santo de quem igualmente se sabe muito pouco” (…) ainda que tenha sido venerado não apenas em Folques mas igualmente na igreja de São Miguel, em Montemor-o-Velho, num forte a três léguas de Almeida e “apud Ovar prope Talabricam”. E prossegue “Na linguagem popular, o nome deste santo corrompeu-se em São Guelindrofe, e chegou a suplantar São Donato na designação do lugar…(…) Oficialmente, prevaleceu o nome de São Donato, que bem o merecia, pois deve ter, pelo menos, uns mil anos de tradição”.


As informações de J. Frederico Teixeira Pinho, em “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar” (1959) confirmam o essencial. “Desde a sua fundação sempre se chamou a esta ermida de São Donato, e menos correctamente São Donato ou São Doado. Mais adiante, quando ali assentaram a imagem de São Goldrofe ou Goldofre, como escrevem outros, também assim fora chamada pelo vulgo que lhe depurtava o nome. Vem depois a lembrança: “Que São Goldrofe foi o primeiro Prior do Mosteiro de São Pedro de Arganil, em que floresceu pelos anos de 1086, quando canonizado por D. Miguel Pais, Bispo de Coimbra. E como por aqueles tempos podiam os Bispos canonizar para dentro das suas dioceses, mandou pôr a sua imagem no altar, e que festejassem no dia do seu glorioso trânsito, que foi a 4 de Fevereiro. É advogado contra as maleitas”. Relativamente às datas das inscrições (1578, 1692, 1696 e 1783), admite o historiador Teixeira de Pinho que “indicam sucessivas reformas, e talvez a introdução de novas imagens, tais como as de São Goldrofe, São Marcos Evangelista, e a da Virgem com o titulo auspicioso de Senhora da Ajuda”.
Concluímos com as observações constantes da “Monografia de Ovar”, de Alberto Sousa Lamy (1.º volume, 1977), onde são acrescentados mais pormenores acerca das capelas de São Donato: “1.ª – A primitiva (1138/1906): (…) temos a primeira referência à ermida de São Donato no Catálogo dos Bispos do Porto, de D. Rodrigo da Cunha, numa doação de 1138, que o bispo do Porto, D. João Peculiar, “fez aos frades que vivião na ermida de São Christovão de Lafões da Ordem de São Bernardo – notícia que merece reservas. Este templo teve como orago São Donato e, posteriormente, São Guldrofe ou Goldrofe (1623 e 1690). Mais tarde voltou ao primitivo nome (1758). Capela antiquíssima, de pedra lioz, sita no lugar de Guilhovai, foi demolida em 1906 contra a vontade do bispo do Porto, D. António Barroso, após discórdias entre populares que a queriam conservar e aqueles que a desejavam derrubar.
2.ª – Capela de N.ª S.ª da Ajuda (…) o templo veio a ser inaugurado em 1903, tendo como padroeiro N.ª S.ª da Ajuda”.
Por tudo isto se conclui que a “presença” de São Goldrofe em terras ovarenses tem um significado profundo que ultrapassa o domínio histórico, pois ilustra a amplidão da fé que suscitou muito para além de Arganil. E as sugestões que nos ocorrem depois desta breve digressão por São Donato podem determinar, quem sabe, outras buscas e interpretações, um dia, em torno do santo que nasceu em Arganil.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1993)

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa tarde, li neste blogue uma referencia ao livro:Inventário artístico de Portugal zona norte editado em 1981, do qual me despertou interesse. Tenho pesquisado acerca do dito livro, sobre o qual queria retirar umas imformaçoes que podessem ser preciosas. Gostaria de saber como poderia arranjar tal livro. Sem mais dizer Cumprimentos José Pedro

Fernando Pinto disse...

Olá José Pedro!

Pode encontrar este livro nas Bibliotecas Municipais. Quem mo emprestou foi o Padre Manuel Pires Bastos, Director do Jornal "João Semana" e Pároco de Ovar.

E-mail: jornaljoaosemana@sapo.pt ou manuelpiresbastos@sapo.pt

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