16.11.08

O Papagaio do Dr. Lopes

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1984)
TEXTO: Maria José Vinga

Eu gosto muito de contar histórias, e mais ainda de as ouvir quando são verdadeiras.
Nos meus tempos de infância – devia ter os meus nove ou dez anos – vinha eu pela descida das Fragateiras abaixo. À minha frente descia um homem de camisa branca, engaço ao ombro, e na mão um pau que podia ter de cumprimento um metro e meio, com um bico na ponta de baixo. Era um esterqueiro. (Naquele tempo, em que não havia saneamento, era costume virem da aldeia à vila comprar covas de estrume para os nabais). O homem parou à porta do Dr. Lopes, que estava meio-aberta, tendo uma cancela de madeira a vedar-lhe a entrada, e bateu, dizendo: 
 Ó senhora, tem esterco para vender? Lá de dentro ouviu-se uma voz que disse assim:  Espere um pouco. Já vai! O homem esperou um pedaço, mas cansou-se, e bateu segunda vez, tornando a ouvir a mesma voz:  Espere um pouco. Já lá vai! O homem voltou a esperar, mas, já aborrecido por perder aquele tempo, que lhe fazia falta para executar os seus planos, bateu de novo, perguntando mais alto:  Ó mulher, tem esterco para vender, ou não? Mas a mesma voz repetiu, também com ar aborrecido:  Espere um pouco. Já lá vai! Sempre espere um pouco, mas não aparecia… Eu, parada na rua a ouvir, disse ao homem:  Quem lhe fala é um papagaio!

E o homem perguntou-me:  A menina conhece a dona desta casa?  Conheço, sim. Vem acolá!
Era a Marquinhas Lopes, que vinha da quinta, pela descida do Quartel, com um braçado de couves. Para confirmar o que lhe disse, tornou à bater à porta, mas de novo ouviu a mesma voz, que lhe continuava a dizer: 
 Espere um pouco. Já lá vai!
A senhora Marquinhas chegou e confirmou: 
 É um papagaio que lhe responde.
Mas o homem não acreditava que um papagaio fosse capaz de o enganar durante tanto tempo. 
 Dá-me licença de o ir ver? Custa-me a acreditar que uma ave fale assim tão bem! Já convencido, o camponês queria comprar-lho. Ela não lho vendeu, claro, nem o venderia por nada. É que o papagaio era o passatempo do Sr. Doutor que, sempre que tinha tempo livre, se entretinha a falar com ele. Por isso ele falava bem.

Nota: Este papagaio serve apenas
para ilustrar o artigo, não é o loiro 
Uma vez, eu tinha ido com a Ana Maria a casa do Sr. Doutor. Ela ia, como era habitual, limpar as pratas. Logo notámos que o papagaio não estava no seu-poiso.
Então a Ana Maria começou a chamá-lo, consumida:
 Meu loiro, meu loiro! Anda cá, meu loiro! Ai que o papagaio fugiu, e o Sr. Doutor mata-me! Anda cá meu loiro! Não sei do papagaio. O Sr. Doutor, quando vier, mata-me se o não vir. Ó meu loiro, meu loiro. Onde estas? Lá do fundo da ramada, ouve-se a sua voz inconfundível:  Estou aqui, Ana Maria, estou aqui!  Anda, que eu dou-te doce!
E lá vinha ele para o seu poiso, devagar, para comer o doce.

O papagaio tinha coisas muito ajuizadas, que nos causavam espanto. E tinha um andar muito lento. Como todos os papagaios, que fazem tudo devagar.
Também na Poça, em casa da Rosa do Rico, havia um papagaio que imitava as peixeiras na venda do peixe, e que dizia, muito bem dito:  Bela pescada! Bela pescada! Bela pescada!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Maio de 1984)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/11/o-papagaio-do-dr.html

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