21.11.08

O extraordinário Rui Cunha

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2005)


TEXTO: Mário Miranda

O que vou contar sobre o Dr. Rui Cunha é baseado não só nos conhecimentos colhidos quando, ainda muito novo, fui sócio do velho Aliança, mas também em informações fornecidas por sua irmã, D. Palmira Cunha, e por uma obra de Armando Sampaio dedicada à Associação Académica de Coimbra, de que foi atleta, depois de ter sido seu presidente durante vários anos, e por isso, pessoa muito conhecida no meio desportivo do país.

Um garoto de Ovar na Académica

Um dia, Armando Sampaio disse: – “ Precisamos de um avançado centro. Logo alguém respondeu: - “ Está no Liceu de Aveiro um garoto de Ovar, que é formidável. – Pois que venha já, à experiência”.

Quando chegou, perguntaram-lhe o seu nome, e ele respondeu, com uma certa timidez: – Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa.

De início, não me pareceu que podia ser o jogador de que tanto necessitávamos. Como me enganei!... Ao experimentá-lo, horas depois, tive o prazer de apreciar a mais extraordinária revelação do futebol português. Eu tenho vinte e tal anos de contacto permanente com o desporto nacional, e nunca os meus olhos viram coisa semelhante: um gaiato de dezasseis anos, com uma velocidade e um “dribling” desconcertantes, um pontapé fácil, certeiro, e tão valente que suplantou o de muitos internacionais. Que assombro!
Aprovado por unanimidade, sendo aluno do 4.º ano do Liceu, só abandonou a Associação Académica quando, já médico, a sua vida profissional o obrigou a isso!...
Uma tarde, contra o Santa Clara, obteve, à sua conta, 12 pontos!... Passou, desde então, a ser considerado o “recordman”, a nível nacional, destronando o então saudoso Pepe, do Belenenses, que, dias antes, alvoraçara a crítica ao marcar 10 bolas num jogo!
Rui tinha começado a carreira com 10 anos de idade, no nosso velho Aliança, clube de que era muito amigo.
Muito humano, muito modesto, ofereceram-lhe, em Coimbra, as mais vantajosas ofertas materiais, mas nada o moveu. Manteve-se fiel até ao fim no seu posto académico, sem nunca receber um centavo de retribuição. Até as botas, mandadas vir de Inglaterra, eram pagas por ele.

Um dia, em Alcobaça, num jogo em que não alinhara por trazer um braço ao peito, ao ver o grupo a perder, não se conformou e, num esforço que teve o seu quê de leviandade, tirou as ligaduras e foi jogar também! Hoje algum jogador faria isso?
O Futebol não era, contudo, a sua maior paixão. Na realidade, só o amor à Associação Académica o manteve tantos anos na actividade desportiva. O mar, isso sim! E se assim falo é porque sei que, já depois de casado, por ser um apaixonado da Ria e, claro, por gostar de navegar, construiu uma casa em frente ao Areinho, onde fazia férias. Ultimamente passava ali, com a família, durante metade do ano, os seus melhores dias.
Como se tratava de um jogador de excepção, o seleccionador Cândido de Oliveira chamou-o à Selecção Nacional. Mas, como já anteriormente tinha vestido a camisola verde-rubra, sempre como suplente, o Rui entendeu ser altura de dizer basta a tanto “gozo”. E mandou-os “rifar” para sempre! Nessa altura, os seleccionadores só escolhiam jogadores de Lisboa e Porto. O resto do país não contava!


Médico, arrisca a vida!

Uma vez formado em Medicina, concorreu à Armada, sendo admitido com elevada classificação. Daí em diante ficou absorvido pelas suas viagens através do mundo.
Foi numa dessas digressões que praticou um acto que, pela verdadeira coragem demonstrada, o notabilizou.
Estava-se em plena II Grande Guerra Mundial. O barco onde prestava serviço recolheu alguns náufragos, vítimas inocentes da terrível conflagração. Como médico, sabia que o seu dever era tratá-los, minorar-lhes o sofrimento. Mas, podendo aguardar comodamente a chegada das vítimas, o seu temperamento de lutador e a bondade do seu coração não lhe permitiram esperar que os marinheiros transportassem os feridos à sua presença. Vendo que alguns infelizes ainda se debatiam nas ondas e que pediam socorro, tomou lugar nas pequenas lanchas e, com a sua energia de atleta, saltou também para o mar, arriscando a sua vida para salvar a vida dos outros. O Governo condecorou-o por este acto de abnegação, mas ele, uma vez em terra, não dissera a ninguém que o fez!
Já casado com uma senhora açoriana e com filhos, resolveu, um dia, fazer um cruzeiro no Mediterrâneo com a família. Atracado o paquete a um porto italiano, reparou, ao desembarcar, que estavam ali pessoas à espera. A dada altura, um cavalheiro inquiriu, com voz forte, se eram portugueses. Como a resposta foi positiva, logo ele perguntou se estava presente o Sr. Dr. Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa. O Rui ouviu, não se moveu, mas levantou o braço. Rapidamente o cavalheiro, um italiano, correu para ele, lançou-se ao seu pescoço e, abraçando-o efusivamente, disse, emocionado: – Se estou vivo, devo-o ao Senhor Doutor, que me salvou daquela tragédia em alto mar. Claro que as lágrimas de imediato lhe correram pelas faces. Foi uma coincidência muito feliz e inesquecível!
Um dia, colocaram no balneário de Santa Cruz uma lápide dedicada ao Rui. Homenagem justa, que alguma coisa ficará dizendo às gerações vindouras, mas pequena, mesmo muito pequena, para quem foi tão grande e tão valorosamente se soube impor.
Rui Cunha jamais será esquecido por Ovar. Mas algo falta fazer: prestar-lhe uma homenagem justa: dar o seu nome a uma das artérias da nossa cidade.




Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2005)

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