10.11.08

Fragateiros de Ovar

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Ainda senhor de uma memória excelente, o nosso prezado amigo e conterrâneo Sr. João Pinto Ramalhadeiro, cuja actividade foi sempre exercida sobre as águas do Tejo e do mar, enviou-nos uma relação de proprietários de fragatas e de fragateiros de Ovar e Válega que habitavam em Lisboa por volta de 1936, ano em que o trabalho nas fragatas estava em total decadência. Mesmo assim, o amigo Ramalhadeiro ainda conseguiu, de memória, relacionar oito proprietários daquelas embarcações e cerca de 190 elementos que as tripulavam.
Não será de reparar que uns tantos nomes não se encontrem correctos, e que muitos sejam mencionados pelas alcunhas por que eram conhecidos. Não virá daí qualquer mal ao mundo, e sempre ficará uma referência para quem, um dia, queira escrever a história da diáspora vareira que nos séculos XVIII, XIX e XX aportou a Lisboa e ali deixou fortes marcas de um povo humilde, sério e trabalhador, tal como hoje ainda é recordado.


Há lacunas imperdoáveis na história dos vareiros que, forçadamente ou não, tiveram que trocar a sua terra por outra: Lisboa, Espinho, Régua, Afurada, Matosinhos, Costa da Caparica, Costa de Santo André, Olhão, Penafiel, Mesão Frio, Vila Real, Lamego, Porto, Bairrada, e quantas mais…
Que campo maravilhoso para um trabalho de investigação a cargo do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Ovar, recorrendo a pessoas especializadas para o efeito, nomeadamente de Institutos e Universidades! Isto é o que se costuma fazer em terras que prezam os seus valores e o seu património.
Estamos cansados de bater na mesma tecla, mas ainda não fomos ouvidos. Pessoalmente, não somos prejudicados com isso. Mas Ovar é-o, sem dúvida alguma!
Convencidos de que temos razão, iremos insistir sempre que tenhamos oportunidade e motivos para o fazer. Não somos de desistir, e a imagem que devemos ter dos vareiros que saíram de cá deve acompanhar-nos. Honraram Ovar e, consequentemente, todos nós.

Proprietários de fragatas naturais de Ovar em 1936:
Gomes Casca; José Gomes da Silva; Salvador Pampulim; Manuel José de Pinho; Soares Santa; Possantes; Manuel Gomes Cascarejo; Francisco Gomes Leite.

Fragateiros de Ovar e Válega em 1936:
Valentim Venceslau; Valdemar Sousa; Joaquim Sousa; Alberto Sousa “Gris”; José Ganau; João Pelim; Manuel Fião; Manuel Ramilo; Manuel do Trigo; António Valguês (Válega); Manuel Valguês (Válega); Manuel Cabral (Válega); António O. Luzes; Bernardo da Pinta; José da Pinta; Salviano Tripa; Francisco Tripa; Manuel Tripa; João da Sueca; Francisco Pula; Mário Ramalhete; Joaquim Cabarneira; David Travanca; António Travessa; Manuel Maria Azóia; José Maria Azóia; Manuel Gomes Cascarejo; José Gomes Cascarejo; Abílio Oliveira Trindade; Brandão Gomes Cacheira; Álvaro Manata; José Arrenta; David da Ribeira; Manuel Calceteiro (Neca Calceteiro); António Zareco; José Videira; Belmiro Pinho Branco; José Pinho Branco; José de Pinho; António de Pinho; José Muscoso; Henrique Lindinho; João Farraia (Padeiro); José Farraia (Padeiro); Agostinho Farraia (Padeiro); Manuel Farraia (Padeiro); Joaquim Farraia (Padeiro); Manuel Caió; José Caió; António Augusto Rajado (cunhado do Elvas); Manuel Geada; João Geada; Francisco Geada; Damião Geada; António Geada; José Maria Geada; João Fião; José Maria Fião; João Ligas; Manuel Vaz (Sapata); Abraão Vaz (Sapata); António Castelo Branco; José Maria Barbado; João da Riquinha; Manuel Ginete; José Rato¹; António Rato; António Silva; António Caralinda; João Dias; Manuel Capitão; Francisco Saboga; Elias Clemente; Américo Aleixo; Manuel da Josefina; Manuel Rabiço; Alberto Paciência; Manuel Maria Bebágua; José Bebágua; António Saronó; Domingos Espichado; Francisco Maria Espichado; Manuel Gringa; Francisco Maria Espanhol; Manuel Escora; Francisco Barbosa: António Barbosa; José Barbosa; José Barbosa Júnior; José Barbosa; Virgílio do Carregal; Serafim do Carregal; Manuel Conde; Firmino Conde; Amadeu Conde; Alfredo Conde; Francisco Correia Vermelho (“Carregal”); Manuel Correia Vermelho; Eduardo Ravázio; José Beta; Manuel Beta; José Areias; Francisco Glória; Manuel Maria Zareco; João Prior; Carlos Faneco; Manuel do Rio; João do Rio; António Cravo; António Santa Camarão; António Manarte; António Pelim; António Ramiro; Antero Ceboleiro; Luís Manarte (“Luís Bexiga”); João Maria Ceboleiro; Francisco Batoca; Francisco Maria Batoca; José Batoca; Manuel Batoca Júnior; António Relvas; Manuel José Pinéu; José Pinéu; Manuel Oliveira Manarte (Relojinho); José Maria Rei; José Catoita; Manuel Catoita; Américo Catoita; Manuel Caleira; José Correia; Augusto da Batoca; Manuel Manata; José da Ruvinha; João Oliveira Vendeira; José Lopes Fião; Salvador Lopes Fião; José Maria Fião; António Augusto Rodrigues Aleixo (“Fião”); Joaquim Raia; Manuel de Arada; António Pinto Garranas (Quinito); José Pinto Garranas; João Maria Gualtério; Francisco Ramalhete; José Maria Ramalhete; José Parrano; Manuel Azoia; Manuel Maria Azoia; Carlos da Moleira; José F. da Silva; Manuel F. da Silva; António de Oliveira Vinagre; João Campona; José O. Manarte; José Maria Pelouro; José Pelouro; Manuel Pelouro; Zeca Pelouro; Isidro; Sebastião Rebelo; Bernardo Rebelo; Manuel P. Rebelo (“Lapuz”); José Nabo; Manuel Maria (“Mestre do Foca”); António Fanha; António Fanha Júnior; Manuel Rabela; Manuel Rebela Júnior; João do Batelão de Água (João Barreto); José Solheiro; Álvaro Solheiro; José Verão; António Rabiço; João Regadinho; Artur Coito; Manuel Coito; Álvaro Morgado; António Canário; Manuel Tadeus; Francisco Tadeus; António Vau; José Formigal; João Canastreiro; José Veiros; Manuel Rabiço; Manuel Maria Canário; António da Isepa.

(¹) Teotónio Pereira ia comer à fragata de José Rato [tio da Maria José, casada com Mário Santos (Gesta)].

Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.
O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira
(ver foto). Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.
O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.
O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…
Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.
Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2004)

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