26.10.08

Padre António da Silva Maia - A consagração que tarda

Jornal JOÃO SEMANA (1/10/1990)

TEXTO: Pinho Lopes

Depois de vários anos volvidos sobre o falecimento do Missionário que se chamou padre António da Silva Maia, é chegada a hora de todos nós que o conhecemos, o tivemos entre nós e o vimos passar com a sua sotaina e a sua bicicleta, relembrarmos o homem e a sua obra, a humildade e o apagamento que foi o seu viver, o desbravador e pioneiro dos morros do Amboím e terras do Seles e o cultor admirável e linguista insigne que transformou dialectos em línguas vivas, com gramática, dicionário, etc…etc.
A grandeza da sua obra missionária, com realizações materiais assinaláveis criação de paróquias (GABELA E VILA NOVA DO SELES), construção de igrejas e fundação de um colégio exemplar, dão a dimensão exacta dum homem que soube viver em condições precárias e difíceis, sem qualquer conforto e suportando um clima que deixa marcas e arruína a saúde dos mais fortes.

Igreja da Gabela, construída no tempo do Padre Maia e restaurada depois da independência
Foi o primeiro desbravador e cabouqueiro de dialectos que estudou, escreveu e fixou como mestre respeitado e brilhante, constituindo a sua obra de linguística, que se estende por diversos títulos, o primeiro ponto de referência e manual obrigatório e único de quem quiser estudar ou aprender as línguas OMUMBUIM, falada no Amboím, e MUSSELE, falada na região de Seles, em Angola.
Quando olhamos com atenção e olhos bem abertos para a sua obra, as suas realizações, o seu viver, a sua cultura, espantamo-nos como foi e continua a ser possível que ninguém alerte, admire ou reconheça o valor do homem, a obra do missionário e a craveira intelectual e a cultura extraordinária deste Vareiro que, até hoje, não soubemos compreender. Noutros países, ditos do progresso e líderes da civilização, o Padre António da Silva Maia teria sido inundado de convites para palestras nas Universidades, Centros de Cultura, etc… Que o diga a América do Norte; para que falar numa Inglaterra ou citar uma Alemanha?… Sempre fomos pobres. Mas continuamos míopes e mal agradecidos.
Mas, apesar de tudo e felizmente, foi este jornal, há bastantes anos, o primeiro a dar notícia da obra que o padre Maia tinha encetado. O “Notícias de Ovar” secundou-o com entusiasmo e vareirismo.
A Imprensa de Ovar deu o exemplo e cumpriu a sua missão.Mas ninguém foi mais longe. Porquê? Talvez porque o nosso Missionário, depois duma obra ímpar e gigantesca, como homem, como missionário e como filólogo linguista, se negou sempre a subir ao palco da vida. Nunca se permitiu passar dos bastidores, e as pessoas andavam demasiadamente preocupadas e embrulhadas na sua mediocridade e egoísmo, e tinham os olhos encravados para enxergar este apagado e humilde gigante que não foi profeta na sua terra.
Uma vida dura e humilde, trabalhosa e determinada que foi uma lição, desde o seu emprego na serração do Ramada, criado de lavoura, entrada no Seminário de Vilar, no Porto, com 18 anos, passagem por Cucujães e Olivais, Missa Nova em Luanda, cumprindo já seu sonho africano, chegada ao Amboím e início de uma obra que nos devia espantar e orgulhar como vareiros e portugueses, mas que nos deixou apáticos, indiferentes, tendo talvez na ponta da língua alguma história ou dichote para contar de ALGUÉM que devíamos respeitar e admirar!...
Não é muito difícil – nem será preciso exibir, para tanto, qualquer canudo – perceber que a pobreza maior e mais angustiante não é a material; a pobreza intelectual e espiritual é muito mais grave, preocupante e lamentável e dá a dimensão dos homens e sociedades.


Padre António da Silva Maia
A obra do Padre Silva Maia ultrapassou muito as fronteiras de Ovar, e o Portugal de hoje foi pequeno para seus sonhos, cabendo a Angola receber, e ver nascer, crescer e frutificar as realizações sonhadas, idealizadas e sofridas por este vareiro grande e humilde, culto e modesto.
Nos tempos que correm, já o Governo Português galardoou obra recente de um missionário de Cucujães, que se debruçou sobre o estudo do dialecto Macua, do norte de Moçambique. Para que não tarde mais, para que os vareiros lutem pelo o que é seu, que é digno, valoroso, e terá de ser o nosso orgulho, teremos de fazer saber ao Governo que o Padre Maia foi um Português que dignificou e honrou Portugal com uma obra a todos os títulos espantosa, quer como Missionário quer, sobretudo, como filólogo emérito, que Angola terá de reconhecer sempre como alicerce e bastião primeiro de dois dialectos.
Sabemos que as paróquias de Ovar estarão disponíveis para se empenharem nesta caminhada.
A nossa Câmara Municipal, com todas as forças vivas e actuantes de Ovar, saberão formar um coro único e uníssono em louvor e reconhecimento do Padre Silva Maia. Para mais glória e orgulho de Ovar e das suas gentes.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 1990)

 Celebração de acção de graças em memória do P.e Maia na Igreja Matriz de Ovar, em 17/5/1992, com a presença do Bispo de Quelimane, D. Francisco Nunes Teixeira, já falecido, e do bispo de Sumbe (actualmente arcebispo no Lubango), D. Zacarias Camwenho. A homilia foi feita pelo P.e Farias, actual pároco da Gabela (na foto).
Monumento ao Padre Maia, na Gabela, 
junto da Igreja por ele iniciada
No passado dia 27 de Setembro, na Gabela, em Angola, foi prestada homenagem póstuma ao Padre António da Silva Maia, sacerdote vareiro que ali prestou serviço missionário. As placas em bronze do monumento agora inaugurado foram oferecidas pela Paróquia de Ovar. A homenagem marcou o arranque do programa comemorativo do 1.º centenário daquela cidade, cuja Igreja foi iniciada com o esforço do nosso conterrâneo.

1 comentário:

Serafim Rodrigues disse...

Apenas acrescentar que o Padre António da Silva Maia, após o seu regresso de Angola, em 1961, tornou-se o Capelão da capela de Nossa Sra. da Saúde e só deixou de o ser por doença e seu falecimento no ano de 1981.
SR