20.10.08

OS CARVALHOS DE CABANÕES - Algumas achegas para a história de uma casa

Jornal JOÃO SEMANA (01 e 15/10/1982)
TEXTO: Manuel Cascais de Pinho

Em S. João de Ovar, uma casa grande ali existente e há muito desabitada, e que, por isso mesmo, dia a dia se vinha degradando, acaba de ser demolida para, em seu lugar, se vir a erguer um novo edifício, certamente mais amplo e grandioso do que aquele fora, mesmo no seu tempo áureo.Situada na rua que da Capela de S. João vai entroncar na Estrada do Porto a Aveiro, tal casa dataria já do século XVIII, muito embora lhe tivessem sido feitos acrescentos nos princípios do século XIX, ficando então com a traça com que chegou aos nossos dias.


Casa dos Carvalhos de Cabanões, junto à capela de S. João de Ovar,
e que foi demolida aquando do alargamento da estrada

Era a casa dos Carvalhos de Cabanões, ou dos Bernardinos de Carvalho, de S. João, como também já foi conhecida esta família com pergaminho e que acabou por estar ligada a outras ilustres famílias de Ovar.
Na família Carvalho houve, no decorrer dos anos, soldados, políticos, poetas e escritores, músicos, etc. etc., ainda que nem todos tivessem nascido em Cabanões, pois a família ou era "oriunda" ou vivera na Rua da Fonte, hoje Alexandre Herculano. Teria sido esse o caso do Padre Fernando Luís de Carvalho, do cirurgião Francisco Leonardo de Carvalho, do boticário Bernardo Celestino de Carvalho, do Dr. Manuel Bernardino de S. Tomaz de Carvalho, e ainda de Micaela Bernardina Leonor e de Ana Bernardina Sena de Carvalho, se é que, além destes, outros mais filhos não tiveram Gaspar Rodrigues de Carvalho e Ana Joaquina do Bomsucesso.


Desta plêiade merecerá, sem duvida alguma, uma citação aparte o Padre Fernando Luís de Carvalho, que, sendo um "douto clérigo", ensinou o latim e o francês, tendo sido também professor do ensino primário, com cadeira de primeiras letras, e ainda farmacêutico, sendo nessa qualidade, a sua botica "a melhor e mais concorrida do seu tempo". De reconhecidos dotes musicais, terá ainda fundado uma Capela, agrupamento musical que actuava na Igreja. Foi convidado para reger a Filarmónica de Ovar, mas como não aceitasse o cargo – embora viesse a fazer parte do agrupamento, – o mesmo seria ocupado por António José Valério, que com esse fim veio de Santiago de Riba-Ul para Ovar, como nos dá a conhecer o Dr. João Frederico ("Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar").
Ao que nos parece, o primeiro prócere da família que terá vindo viver para Cabanões terá sido o acima mencionado Manuel Bernardino de São Tomaz de Carvalho (Doutor o denomina António Dias Simões, mas não sabemos em quê, nem tão pouco no-lo dá a conhecer João Frederico, que o menciona, sim, como "boticário do exército").
Casando-se com D. Ana Maria Pereira (dos Valentes, do Rio), dela teve dois filhos, o António e o Manuel Bernardino de Carvalho, que vieram a ser pessoas de prestígio e nomeada, sobretudo o primeiro.



António Bernardino de Carvalho, nascido em Março de 1802 naquela casa de S. João, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicando-se também às letras, escrevendo em prosa e em verso. Ainda hoje se conservam em Ovar vários trabalhos seus que não chegaram a ser publicados.
Como liberal que foi, terçou armas pela sua causa, tendo de emigrar, sofrendo, por cinco anos (1828-1833), na Inglaterra, Bélgica e França, as agruras do exílio. Regressado a Portugal, desempenhou vários cargos políticos, inclusive o de Oficial-Maior (a que poderia corresponder hoje o lugar de Director-Geral) das Secretarias do Reino, no tempo da Junta Provisória do Supremo Governo do Reino, instalada no Porto nos anos de 1846 e 1847, e que veio a ser dissolvida após a Convenção do Gramido, em 30 de Junho de 1847.
Pela sua dedicação à causa Liberal foi agraciado com o grau de Cavaleiro das Ordens de S. Tiago da Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Dizia-se, e isso o aponta Dias Simões, que em 1833 o Dr. António Bernardino de Carvalho teria oferecido a D. Pedro IV um Projecto do Código Penal, e que, ainda nesse mesmo ano, teria entregue ao Ministro Joaquim António de Aguiar – que não tardaria muito a ser conhecido pelo Mata-Frades, dado o seu célebre decreto de extinção das ordens religiosas – um projecto da Lei de Caça, projecto esse que "mais tarde foi aproveitado pelos seus íntimos amigos Passos" (Manuel e José da Silva…).
Desempenhava o cargo de Juiz da Comarca de Santo Tirso quando a morte o surpreendeu aqui em Ovar, em 1864 – e não 1862, como erradamente corre impresso –, na sua casa junto à ponte da Sr.ª da Graça (casa que fora dos Valentes, do Rio, e que tinha pedra de armas, que João Frederico descreve nas suas "Memórias e Datas").
O Dr. António Bernardino de Carvalho foi, pois, uma prestigiosa figura. Da sua vida e obras fala pormenorizadamente o livro OVAR-BIOGRAFIAS, de António Dias Simões, obra infelizmente ainda desconhecida de uma grande maioria dos vareiros…

UMA PROLE ILUSTRE

Do seu casamento, realizado em Ovar, em 1824, com D. Virgínia Adelaide Numes Cardoso, filha do então Juiz de Fora de Ovar Doutor Vicente Nunes Cardoso, houve os seguintes filhos:
1 – Olímpia Adelaide, nascida em 1825, que se casou com o já citado Dr. João Frederico Teixeira de Pinho, ainda seu primo, médico e cirurgião e primeiro historiador vareiro. Faleceu nova (35 anos), e o único filho do casal morreu criança ainda.
2 – Licínio Fausto Cardoso de Carvalho, nascido em Janeiro de 1827, e que a morte bem cedo acabou por levar, com 28 anos apenas. Engenheiro das Obras Públicas, formou-se no Porto, onde viveu a maior parte do tempo e onde acabou por morrer. Foi uma figura profundamente ligada às letras, deixando-nos algumas peças dramáticas, de sabor histórico, tais como os "Dous Proscriptos ou Jugo de Castela", que teve várias representações em diversas épocas, bem como várias edições (e até contrafacções brasileiras…), o "Rajá de Bounsoló" e ainda "Os Hallas", drama em 4 actos, este de sabor verdadeiramente vareiro, pois a sua acção desenrola-se quer na Praia e Costa do Furadouro, quer junto à Ermida da Senhora de Entráguas, quer mesmo numa rua e largo da própria vila.
À data da primeira representação deste drama no Porto, em Março de 1855 (ou seja, a curtos sete meses da morte do autor!) por estudantes da Escola Politécnica daquela cidade, um dos principais papeis – o de solista –, foi desempenhado por Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que mais tarde viria a ser o consagrado romancista Júlio Dinis…O jovem actor, então com 15 anos, iniciava também então a sua vida literária, escrevendo peças de Teatro. (Influência de Licínio e dos "Hallas"?).


Monsenhor Miguel de Oliveira, numa apreciação que fez em 1934 acerca deste drama, diz ser um trabalho "cheio de cor local, e contém cenas do mais perfeito recorte", afirmando ainda: "depois da primeira leitura, ousei pô-lo ao lado do "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett".
Licínio deixou também incompleto um romance histórico, "A VIRGEM DE MALACA", e tinha em preparação ou estudo outros trabalhos, que chegaram a ser anunciados.
Liberal, seguindo as pisadas dos seus ascendentes, esteve do lado da Junta Provisória, nela desempenhando o cargo de secretário de seu Pai, Dr. António Bernardino de Carvalho que, como atrás se disse, era Oficial Maior das Secretarias do Reino.
Mas não se ficou por aí. Assim, nesse agitado período da vida nacional, fez parte do Batalhão dos Fuzileiros da Liberdade, onde, como alferes, e numa acção nos campos de Setúbal, acabou por ser ferido.
Em Maio de 1847 foi agraciado com o Hábito de N.ª S.ª da Conceição de Vila Viçosa, devido "aos relevantes serviços que na presente crise tem prestado à Causa Nacional".Aquando do seu funeral, em Outubro de 1855 (e não de 1854 como erradamente corre nas suas biografias), as chaves do caixão foram entregues a José da Silva Passos que, anos antes, havia sido um dos elementos da Junta Provisória – "verdadeiramente a alma da Junta", e não somente o seu Vice-Presidente.3 – Hermínia, nascida em 1828, e que veio a casar-se com um oficial do Exército, da família dos Viscondes de Seabra e Barões de Mogofores. Terá morrido nova, e não consta que tivesse descendência.

4 – Alfredo Elísio: Foi o último dos filhos varões do casal. Natural de Ovar, aqui nasceu em Dezembro de 1835.
Formado em Direito, foi também um mimoso poeta, com várias poesias espalhadas pelos jornais e publicações da época.
Era da pequena roda de amigos de Júlio Dinis (Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho) de que faziam parte Custódio José Passos, irmão do poeta Soares dos Passos, Nogueira Lima, que foi proprietário e redactor de "A Grinalda", os irmãos Luso (Henrique Augusto, Augusto e Eugénio), e poucos mais. A ele se refere Júlio Dinis, tratando-o por Alfredo Cardoso, na carta que de Ovar escreveu em 16 de Maio de 1863 ao seu amigo Passos. A casa nela citada, situada junto à ponte da S.ª da Graça, em cuja borda o futuro romancista se sentou várias vezes para ouvir cantar os rouxinóis que então povoavam o quintal da mesma, é precisamente aquela onde Alfredo Elísio e seus irmãos mais velhos haviam nascido!
Alfredo Elísio morreu no Porto, relativamente novo, e, tal como terá acontecido a seu irmão Licínio, não terá deixado descendência. Pelo menos que saibamos.

5 – Branca Hedwiges – Nascida em 1844, mas já na cidade do Porto, foi o último rebento do casal António Bernardino de Carvalho e D. Virgínia Adelaide Cardoso.
Branca Hedwiges, como seus pais e avós maternos, vivia, ao tempo, no Porto, na Rua dos Lavadouros, artéria há muito desaparecida, sacrificada que foi pela abertura da actual Avenida dos Aliados.
Viveu alguns anos em Ovar, para onde veio no ano em que seu Pai faleceu (1864), aqui casando e aqui lhe nascendo alguns filhos.
Tendo recebido uma esmerada educação, deu-se de alma e coração às letras, deixando vários trabalhos em prosa e em verso. Entre os seus escritos aponta-se o romance histórico A VIRGEM DE MALACA, obra que seu irmão Licínio deixara incompleta, como atrás se disse. (Ainda em vida de Licínio, e certamente para se chamar a atenção do público, haviam sido publicados no jornal literário "O Pirata" dez "fragmentos" do romance, que D. Branca refundiu e completou, publicando-o em folhetins no Diário de Noticias).
O Tenente-Coronel Strecht de Vasconcelos, que foi casado com uma filha de D. Branca Hedwiges, numa carta há muitos anos publicada no Jornal de Notícias, do Porto, entre algumas curiosas revelações que faz, diz ser muito possível que Júlio Dinis tivesse encontrado na sua figura o tipo da Madalena do romance "A Morgadinha dos Canaviais", afirmando mesmo que "na família da referida Senhora (D. Branca) sempre se disse que a Morgadinha era ela".
D. Branca Hedwiges Cardoso de Carvalho, a que, pelo casamento, juntou os apelidos de Pinto de Sousa, faleceu em Aveiro, em Setembro de 1913.
Quando da sua morte, escreveu-se ter ela sido "uma das senhoras portuguesas cultoras das letras que mais se puseram em evidencia no último quartel do século passado".
Aliás já se viu que D. Branca era originária de uma família que cultivou as letras, como terá sido o caso dos já apontados Pai e irmãos Licínio e Alfredo.


Mas a "veia" estendia-se também ao lado materno. A sua mãe, senhora cultíssima, que lhe soube dar uma esmerada educação, não lhe foram de todo estranhas as letras. E seu avô materno, o Dr. Vicente Nunes Cardoso – que, como "liberalão", chegou também a ter a cabeça a prémio! – versejava em 5 línguas!
D. Branca, além dos diversos trabalhos publicados em livro (originais e traduções), deixou vasta colaboração espalhada por jornais da província (Viseu, Póvoa do Lanhoso, Elvas, Portalegre, etc. etc.) e pelo "Almanaque das Senhoras".
Entre os seus inéditos, citaremos o romance "FANATISMO DO CORAÇÃO", manuscrito de 285 páginas, felizmente não perdido, que se encontra em Ovar! O título primitivo seria "O Fanatismo d’uma grande alma". Tê-lo-ia começado a refundir (se é mesmo o não terminou), alterando-lhe então o título, bem como alguns nomes próprios e apelidos dos personagens. Originariamente dedicado a seu marido, com algumas palavras de apreço, essa dedicatória acabou, também por ser anulada.

Como se terá visto, António Bernardino teve, nos seus filhos, quem o honrasse sobremodo, e, bem assim o nome dos Carvalhos de Cabanões! Quanto ao outro filho do Dr. Manuel de São Tomaz de Carvalho e irmão de António Bernardino de Carvalho, de nome Manuel Bernardino de Carvalho, esse terá continuado na casa onde nascera e que fora de seus Pais. Sendo um dos maiores proprietários da zona, não escapou também à politica, mas em âmbito mais restrito, pois limitou-se praticamente à terra…
Foi tenente da 2.ª Companhia de Fuzileiros, organizada aqui em Ovar, e que fazia parte do Regimento de Milícias de Oliveira de Azeméis.
Por diversas vezes foi Vereador da Câmara Municipal de Ovar, tendo sido por duas vezes, seu Presidente, nos anos de 1852 e 1853.
Estava, pois, à frente dos destinos desta nossa terra quando, em 22 e 23 de Maio de 1852, a Rainha D. Maria II, com o seu Régio esposo D. Fernando, e os príncipes D. Pedro e D. Luís (que mais tarde viriam a ser os reis D. Pedro V e D. Luís I), esteve de visita a Ovar, localidade onde os régios visitantes terão tido uma das melhores e maiores recepções, muito falada ao tempo.Manuel Bernardino de Carvalho casou-se em 1832 com D. Ana Maria Pereira Baldaia, dos Baldaias de Cabanões, ramo que provinha dos Baldaias de Canelas, em Vila Nova de Gaia, no dizer do Dr. Zagalo dos Santos.
Desse matrimónio, ao que sabemos, terá havido os seguintes filhos: Bernardina Augusta, José Maria, e Augusto, este falecido em 1861, com 16 anos apenas, quando era "estudante de gramática latina" como se diz no registo de óbito. O José Maria também não terá morrido mais velho, pois já era falecido em 1881, ano de falecimento de seu pai Manuel Bernardino de Carvalho. No registo de óbito deste ano diz-se ser ele viúvo, não havendo testamento, e que deixou uma filha.
Esta filha, D. Bernardina Augusta de Carvalho casou, contra vontade dos pais, em 1857, com António dos Santos, também do lugar de S. João.
À falta de filho varão, desapareceram, assim, os Bernardinos de Carvalho, para se seguirem os Bernardinos de Carvalho Santos. Nestes não surgiu, até hoje, qualquer vulto de destaque que possa interessar para a História de Ovar.
Dos Bernardinos de Carvalho, porém, ainda hoje se fala, sobretudo ali em S. João. Dos seus muitos teres e haveres, da sua grande casa que, no entanto, de há uns anos a esta parte, se encontrava abandonada e com um aspecto que nada condizia com o nome e prestígio alcançado outrora! Até que o camartelo do progresso (?) a derrubou…


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de Outubro de 1982)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/10/os-carvalhos-de-cabanes-algumas-achegas.html

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