20.9.08

Gabão-varino é criação de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2002)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Gabão varino
Hoje resolvemos aflorar um assunto muito do nosso agrado, por o considerarmos uma parte importante do património vareiro: o gabão-varino.
Temos lido algumas referências a propósito desta peça de vestuário que a própria Universidade de Aveiro chegou a ponderar ser adaptada para servir de traje de gala nos grandes actos a realizar naquele estabelecimento de ensino.

Claro que esse gabão-varino, a ser utilizado para o que se pretendia, teria que ser confeccionado com tecidos mais ricos, diferentes dos tradicionais, que eram, como se sabe, bastante pobres.
Estamos sem saber se a U. A. Chegou ou não a achar válida a ideia.
Quem consultar o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora ou qualquer enciclopédia, ficará a saber que o gabão-varino é um capote com mangas, pequeno cabeção e capuz usado pelos homens do litoral português, de Mira até Ovar.
Crentes de entrarmos na defesa do gabão-varino como peça de vestuário criada em Ovar e depois utilizada noutras localidades do litoral da zona em que estamos inseridos, e até no interior, queremos transcrever uma passagem da “Monografia Rural de Ovar, Concelho de Ovar, no distrito de Aveiro”, do eng.º Agrónomo João Vasco de Carvalho (1912), que na pág. 66 diz:
“O vestuário do vareiro, actualmente, pouco difere do comum do nosso povo. Apenas há a notar o uso quase geral, mesmo em pessoas relativamente abastadas, do tamanco e da chanca, o que se explica por ser excessiva ali a humidade, e também o uso do varino, que tanto se tem generalizado por todo o país, como meio de agasalho contra o tempo às vezes ventoso e desabrido”.A propósito, não podemos deixar de recordar o nosso avô materno, que ainda conhecemos quando tínhamos uns 6/7 anos. Víamo-lo muito alquebrado, depois de uma vida inteira passada a bordo de uma ou outra fragata no Tejo, caminho quase forçado que tinham de percorrer os moços de Ovar.

Gabão varino
A visão com que ficámos desse avô, Manuel Correia de Pinho, falecido com 85 anos, talvez em 1927 – vestido, muitas vezes com o gabão-varino de cor castanha, calçando tamancos e usando na cabeça um barrete preto de lã – contribuiu para lançarmos este alerta a todos os vareiros para que olhem para os gabões-varinos como uma peça sua, de Ovar. Na nossa área, queremos lembrar que na parte urbana e arredores o gabão foi uma uma peça de traje masculino, poderemos dizer de utilização normal, sendo usado tanto pelos homens ligados ao mar como pelos da lavoura, tão grande era a sua utilidade.
O que pretendemos com este apontamento? Levantar esta questão, merecedora, certamente, de um estudo muito profundo: é nossa convicção que sempre que aparecem as designações vareiro, varino, ovarense, ovarino ou ovareiro está em causa qualquer coisa que nos diz respeito, porque relacionado com Ovar.
Na nossa óptica, embora pouco autorizada, esta peça do vestuário a que nos temos vindo a referir nasceu em Ovar e não em qualquer outra localidade, já que, se assim fosse, não teria, por certo, o nome de gabão-varino.
Até prova em contrario, bem explícita e fundamentada de forma a convencer-nos, o gabão-varino é nosso.
Se acaso tivesse nascido em Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Coimbra ou Figueira da Foz, por exemplo, seria designado como é?


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Outubro 2002)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 24) 

Adenda:
"... naquela altura havia muitas pessoas, sobretudo bem instaladas na vida, que eu via, nos dias frios de Inverno, usarem o varino, feito de burel castanho, enquanto os usados pelos lavradores eram igualmente castanhos, mas de tecido mais fraco.
Recordo uma figura conhecida no nosso meio, que o usava também de bom burel, cabeção e capuz preto, bem como as pontas das mangas em preto e com bom feitio. Calçava tamancos castanhos, fechados atrás, com meias de lã e boné de lã, este com palas para tapar as orelhas, palas que eram abotoadas debaixo do queixo; é que por vezes o frio era insuportável, sobretudo quando era tocado por vento forte. (Ainda não havia a mata florestal que agora nos defende).
Estou convencido de que há-de haver ainda alguns desses gabões varinos guardados como recordação por familiares dos que os usavam.”


Mário Miranda (João Semana,1/11/2002)

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