21.8.08

GERMAN IGLESIAS – Doze anos de vida artística em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1983)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Natural de Ferrol, em Espanha, onde nasceu em 15 de Abril de 1884, German Iglesias formou-se, aos 20 anos, em Belas-Artes, na Real Academia de São Fernando, de Madrid, onde chegou a ser colega do seu conterrâneo e futuro chefe do Estado espanhol Francisco Franco, oito anos mais novo.

German Iglesias
Auto-retrato aos 65 anos
Em 1912, num período difícil para o seu país, estando já casado e tendo vários filhos, cruzou a fronteira de Valença, um tanto à aventura, na intenção de demandar a cidade do Porto. Viana do Castelo seduziu-o pelo seu encanto, proporcionando-lhe trabalho, pelo que decidiu radicar-se ali com a Família. Para trás ficavam muitos sonhos e alguns anos de labor, os últimos dos quais passados em Vigo, onde decorou, com figuras bíblicas, os tectos da Igreja Matriz.
Ovar e Penafiel, em virtude de contratos assumidos nessas regiões, foram as terras portuguesas onde permaneceu maiores períodos da sua vida.
Se de Viana e Penafiel partia para todo o Minho e Douro, de Ovar, onde chegou em 1943, com o objectivo de
restaurar as Capelas dos Passos, fez elo de ligação com muitas terras das Beiras, na delicada missão de reformar imagens, telas e retábulos, deixando por toda a parte algumas criações originais.
Em Penafiel pintou duas telas notáveis para o Regimento de Artilharia Contra Aeronaves ali sediado, telas essas que hoje se encontram guardadas no Quartel-General do Porto, e um retrato do ilustre militar penafidelense Almiro Vasconcelos, hoje exposto no Museu de Amarante. A maior parte das obras em tela de German Iglesias conservam-se precisamente em Penafiel, na casa onde habita sua filha Nemis. O Hospital da cidade possui uma bela pintura da Virgem, e a frontaria da Igreja da Misericórdia ostenta uma expressiva escultura de sua autoria, representando São Jorge.
Entre as localidades do Norte onde deixou outras obras de vulto, citamos Barcelos, Barcelinhos, Caminha, Vila Praia de Âncora, Amarante (Igreja de São Gonçalo) e Lamego (decoração do Teatro Ribeiro da Conceição).
Em Ovar podem apreciar-se trabalhos seus nas habitações da família Capoto (Rua Elias Garcia) e do Dr. Alberto de Sousa Lamy (Alto do Saboga), na sacristia da Capela de São Pedro, onde há um grande quadro a óleo representando uma cena do Calvário, e na Igreja Matriz, onde pintou o painel da tribuna do altar-mor, representando o Santíssimo Sacramento. A propósito deste painel, que data de 1946, escreve o P.e José Ribeiro de Araújo nas suas “Poalhas da História da freguesia e Igreja de Ovar” (1952): “Este artista, que podemos chamar de escol, faz desabrochar em quase todos os seus quadros, como neste, cenários de luz e cores vivas que deslumbram. É mestre no traço e no sombreado que nos dão, bem vincado, o relevo das imagens”.
Ainda na vila, e para o antigo Café Celeste – hoje Snack-Bar John Bull – fez altos-relevos em gesso, representando temas vareiros: o mar, a ria, a fonte do Casal, a varina. (Na recente remodelação da casa, esses quadros foram pintados de amarelo, a mesma cor das paredes… Há que rectificar a pintura, que ficaria melhor com o aspecto do barro ou do grés).

German Iglesias e a esposa
A actividade artística de German Iglesias em Ovar, como acontecera em Penafiel e Anadia, desdobrava-se na criação e pintura de deslumbrantes cenários que ajudaram a Paróquia e sobretudo o Orfeão de Ovar – quem não lembra as suas famosas Revistas? – a prestigiar-se no campo teatral, onde também brilhavam, como artistas amadores ou como autores, os seus próprios filhos. Muitos desses cenários ainda perduram, merecendo ser salvaguardados da destruição.
Sempre pronto a colaborar com as instituições de caridade, punha frequentemente ao seu serviço os fulgores da sua Arte. Há quem se lembre de o ver, em dia de quermesse, na velha Praça das Galinhas (Largo Mousinho de Albuquerque), a ultimar um quadro que logo seria posto em leilão.
Como curiosidade, registamos que os próprios filhos do pintor foram, várias vezes, os modelos das obras que fazia. Em Santa Marta (Penafiel), por exemplo, o Zeca, a Zita (Luz) e a Mimi (Maria do Carmo) estão retratados, respectivamente, nas figuras de Cristo, de Marta e de Maria, da conhecida cena do Evangelho.

Desenho da autoria de German Iglesias
Foi em Ovar que Iglesias passou os últimos anos da sua vida, entrecortando-os com visitas fugazes ao Norte. O seu atelier, na Rua Padre Ferrer (no 1.º andar da casa do sr. Mário Almeida), era lugar de encontro para numerosa clientela e para os amigos mais íntimos, que vinham de longe para troca de impressões sobre obras de arte.
Ao pressentir, iminente, o seu fim, retirou-se para Penafiel, onde deixara sepultada a sua mãe, em jazigo de Família. Ali veio a falecer em 13 de Março de 1955, assistido espiritualmente pelo seu grande amigo Padre Abreu.
Como prova de quanto era considerado, o comércio local cerrou as suas portas na hora do funeral, em que tomou parte o Regimento de Penafiel, onde um seu primo fora Comandante e dois genros eram Oficiais.
Esta circunstância, que obrigou o uso de um certo protocolo, impediu que se cumprisse parte da sua última vontade: ser sepultado com o fato de trabalho, e ser transportado até à última jazida por alguns dos pobres que ele socorrera em vida.
A um ano do 1.º Centenário do nascimento de German Iglesias, desejaríamos que a evocação que fazemos do Artista pudesse contribuir para que essa data não passe despercebida.

Cremos que uma Exposição das suas Obras, pelo menos das que se encontram em Ovar, seria uma iniciativa ao nosso alcance.
Tela de German Iglesias
(Igreja Matriz de Ovar)
Eis, em traços forçosamente breves, o perfil de um homem bom que a Espanha deu a Portugal.
Em jovem, foi de índole boémia e extravagante, como é característico de muitos artistas. Para ilustrar este pendor, bastará referir que ao filho mais velho pôs, no Baptismo, nada menos que treze nomes, tantos quantos puseram a um príncipe espanhol no mesmo dia nascido. Achava ele que o seu rebento, lá por ser plebeu, não era inferior em dignidade ao filho do Rei de Espanha!...
Já na idade adulta, quando as responsabilidades familiares pautavam a sua vida, foi ainda incompreendido por alguns, que o quiseram rotular ideologicamente – os artistas não escapam à bisbilhotice dos pequenos meios! – e criticado por outros no tocante aos seus trabalhos – a sua intervenção nas Capelas dos Passos, por exemplo, foi muito contestada naquela época! Mas German Iglesias sempre esqueceu agravos e afrontas, convivendo com os grandes e com os simples e refugiando-se, nas horas mais sombrias, no reconfortante mundo da sua Arte.
A memória deste homem, que subsistirá enquanto perdurarem as obras que criou, é guardada com a maior veneração pelos seus filhos e descendentes, que dele herdaram, para além das paletas e dos pincéis, uma notável intuição artística. De todos se destaca, neste momento, um jovem de nome Nuno Rolando Tomás Ferreira, de Penafiel, seu bisneto (pela linha da filha Nemis), que conta pouco mais de 20 anos, e que iniciou estudos superiores na Escola de Belas Artes do Porto, concretizando uma vocação inata que se vem manifestando nele desde a infância.

Folgamos em saber que o génio que em Ferrol, há 99 anos, fadou German Iglesias como Artista, continua a soprar, forte, no seio da sua Família.
Vários prémios recebidos nessa época atestam uma forte propensão para a Pintura, a que viria a devotar toda a sua vida. LEIA MAIS AQUI. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1983)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 22)

1 comentário:

Francisco Gama disse...

Procuro o quadro de “Almiro de Vasconcelos”.
Conforme diz o artigo encontra-se no Museu de Amarante.
Visitei o referido museu e não encontrei o referido quadro.
Alguém sabe do seu paradeiro?
Atenciosamente,
Francisco Gama