3.7.08

A festa da árvore e a antiga Escola da Olaria

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem passar pelo Largo da Olaria encontra uma palmeira já velhinha, com a idade bem vincada no tronco, tal como ficam vincadas as rugas no rosto das pessoas à medida que vão envelhecendo. A seu lado, uns bancos de jardim convidam ao descanso os moradores daquele largo e todos os que por ali passam, os quais, sentando-se neles, podem, nos dias mais quentes e soalheiros, usufruir da sombra da velha árvore.


Em 20 de Março de 1992 foi ali colocada uma placa em azulejo, com a seguinte inscrição: “Palmeira plantada pelas alunas da antiga Escola da Olaria no dia da festa da árvore, celebrada pelas Escolas Primárias de Ovar em 9 de Março de 1913.”
Quanto a mim, foi uma óptima ideia a colocação daquele registo, porque dá a conhecer às gerações futuras que existiu naquele local uma escola onde as alunas aprendiam a Instrução Primária e onde, na data assinalada, em clima de festa, plantaram uma árvore, aprendendo, da forma mais pedagógica, como se deve proteger a Natureza.



(O local onde existia a Escola é hoje ocupado
 pelo prédio que se vê por trás da palmeira)
Este facto vem assim narrado pelo Dr. Alberto Lamy no volume 2 da sua Monografia de Ovar:
“Realizou-se pela primeira vez em Ovar, por iniciativa dos professores, a festa da plantação da árvore, com o concurso dos alunos de todas as escolas, da Filarmónica Ovarense, da Comissão Municipal e de muito povo. Fizeram-se plantações em frente ou próximo das escolas oficiais.”Esta descrição vem ao encontro do que me disse, há alguns anos, uma veneranda senhora que frequentou a antiga Escola Padre Ferrer, na Rua que tem o seu nome. Recordava-se ela muito bem de que, numa festa semelhante, realizada no largo onde se encontrava esse estabelecimento, foi também plantada uma árvore, tendo as crianças da escola cantado uma cantiga que ainda trazia na memória e repetiu, cantarolando: “Ó escolas, semeai!”… Ó escolas semeai!...
A palmeira existente no Largo da Olaria é das poucas desse tempo – a única? – que chegaram aos nossos dias, porque as muitas outras árvores que foram plantadas nessa época secaram ou foram destruídas.


Naquele largo existiam também, nos meus tempos de criança, algumas amoreiras, de cujas folhas me abastecia para alimentar os bichos-da-seda. Teriam sido igualmente plantadas pelas alunas da velha escola em anos diferentes?...
Hoje ouve-se muito falar no Dia do Pai, da Mãe, dos Namorados, etc., datas muitas vezes inventadas para fins comerciais.
Contudo, não ouço anunciar, com a mesma ênfase, um dia dedicado à árvore que, como dizia o poeta, nos dá os frutos que nos alimentam, a sombra que nos protege do calor, o oxigénio que respiramos, e, depois de abatida, ainda nos fornece a lenha com que acendemos o lume, e a madeira para construir a casa e o caixão.
Quando toda a gente se preocupa com os fogos e outras calamidades destruidoras da natureza, seria bom ver as associações ligadas à Terra e ao Ambiente empenharem-se para anualmente podermos comemorar um dia dedicado à festa da árvore, como aquele que as escolas de celebraram em Março de 1913.
Não consegui saber exactamente o ano da inauguração da velha Escola da Olaria. Mas sabe-se que já existia na primeira década do séc. XX, e que, antes de funcionar como Escola de Instrução Primária (só para meninas) era conhecida pela Casa das Mestras Régias.
Constituída por duas salas, separadas entre si com um tapume de madeira e uma porta ao meio, em forma de arco, que servia de passagem, foi o principal estabelecimento de ensino do sexo feminino em Ovar até 1948, data em que encerrou, após a inauguração da Escola da Oliveirinha, que passou a substitui-la.
(Na foto - De pé, da esquerda para a direita: Maria do Céu, Sãozinha, Rosa, Olívia, Idalina e Eurídice.Sentadas, da esquerda para a direita: Lurdes, Maria, a Prof. D. Palmira Freire de Liz, Angelina e Antonieta).Quem frequentou esta escola recorda, ainda hoje, os métodos rigorosos de disciplina nela utilizados – como aliás acontecia em todas as outras escolas da época –, mas fala com saudade do respeito que havia entre alunas e professoras, e da educação e do saber por elas transmitido num sistema muito diferente do actual, sistema esse que hoje poderemos considerar polémico, mas que dava aos alunos e alunas conhecimentos de cultura e de educação em nada inferiores àqueles que são ministrados actualmente.
Nos anos 30, o corpo docente era composto por duas professoras: D. Palmira Freire de Liz e Margarida Pinho, cada uma delas incumbida de leccionar duas classes.
As alunas usavam batas brancas, como era habitual naquela época, e tinham aulas de manhã e à tarde.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de abril de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/07/festa-da-rvore-e-antiga-escola-da.html

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