9.6.08

OVAR – do Azulejo, do Pão-de-Ló e do Carnaval

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/1994)
TEXTO: J. Gonçalves Monteiro

Com a devida vénia transcrevemos um interessante artigo publicado no jornal “O Primeiro de Janeiro”, de 10/4/1994.
OVAR, cidade desde 16 de Maio de 1984 e concelho bem mais antigo (Cabanões, desde meados do século XIII devido a algum foral velho?) motivou-nos, desta vez, referências a algumas marcas (e marcos) da sua história e desenvolvimento.
Da legenda “Ovar – cidade do azulejo” virou à caracterização anódina e indistinta de “Ovar, Cidade do Carnaval”. Só que as cidades, as suas marcas e os seus espaços permanecem enquanto consentirmos; carnavais (e outras folias) perduram os anos que quisermos.

Que Zona Histórica?

A delapidação progressiva (pouco a pouco) do azulejo ou de fachadas azulejadas tem sido um facto, assim como a descaracterização de outras referências espaciais (de ambiente e arquitectónicas) que davam significado (e personalidade) à cidade, aos seus recantos mais castiços, aos seus espaços e símbolos do seu relacionamento. Apesar de tudo, ainda permanecem “leituras” (nalguns sítios, até quando?) à história antiga do espaço inconfundível da cidade vareira: monumentos religiosos (muitos), civis (poucos) e vestígios urbanos com algum peso histórico-cultural.
Será pena que os vareiros (agentes económicos, autarquias e associações) não conjuguem esforços na preservação desses sinais (símbolos) do passado comum e reduzem a cidade à imagem vulgar (unifacial) de tantas outras, sem nada que as personalize, pessoalize, identifique e distinga.
Onde está a zona histórica da cidade? Para que espaços tende a ser limitada? São perguntas legítimas (e bem intencionadas) de quem sente (ou pressente) que Ovar, dia a dia, vai perdendo muito daquilo que (há bem poucos anos) a distinguia doutras cidades.
Pão-de-Ló ou Carnaval, no fundo, não constituem essência do património material e espiritual de uma terra. Ovos e qualquer “rainha” mais ou menos despida são “ingredientes” do nosso quotidiano sem história; as marcas inconfundíveis (e restituíveis) do Património ou das Tradições culturais, essas não.

Origens e marcas do desenvolvimento

Uma localidade exige sempre explicação das origens e do nome.
Segundo alguns autores (Miguel de Oliveira, por exemplo) o lugar de Cabanões (Vila Cabanonis), freguesia de S. Cristóvão, foi a primitiva sede de Ovar, embora (terra e nome) com referências comprovadas nos primeiros documentos medievais, relativamente às “terras de Santa Maria” a que pertencia. Cabanões, lugar primitivo de cabanões (pequenos lavradores ou agricultores sem bois nem carros) que viviam em cabanas e, anualmente, pagavam ao “senhor” donatário o foro cabaneiro em produtos da terra. Depois da Reconquista ou pacificação duradoira é natural que os indígenas (autóctones) se tivessem fixado na região erma de que estiveram ausentes durante as sangrentas invasões.
Quanto a Ovar (terra topónimo) as certezas não são tão absolutas relativamente ao primeiro povoado (póvoa de agricultores ou pescadores?) nas proximidades da actual estação de caminho de ferro. Diz a tradição que o nome da sede do concelho (aparece como tal em 1251) derivará de Var ou O Var, formas iniciais (com ou sem artigo definido).
– Onde vais?
– Vou a o Var (ou seja, vou ao lugar de Var).
Do topónimo (Var terá assimilado o artigo) vieram depois os derivados (e gentílicos) varino, ovarino, vareiro e vareira relativamente às pessoas (naturais) e às coisas (provenientes) de Ovar.
Mas a explicação etimológica, rigorosa (e científica) não será assim tão linear e, por isso, deixamo-la aos especialistas que também não chegaram a conclusões unânimes e pacíficas.
(Ver artigos do Dr. A. Almeida Fernandes em recentes artigos no “João Semana”).
A data da instituição (erecção) paroquial também não se sabe com rigor. A primitiva matriz terá sido templo dedicado a S. Donato ou a S. João (séc. X)? Há quem vá mais longe: a um templo do século VIII da nossa era (primitiva matriz de Ovar) no local da actual capela de S. João, recentemente restaurada.
Não foram só terrenos férteis, ria e mar, que proporcionaram o crescimento e a prosperidade de Ovar. As indústrias salineiras e da pesca foram as primeiras que se estabeleceram na região. A posição geográfica (junto à costa e linhas de maré) permitiu a exploração das marinhas e intensas actividades marítimas. Curiosamente as marinhas mais antigas do país localizavam-se (quem diria?) em terra firme da actual freguesia de Válega (atravessada pela EN 109), cujo centro (a sudeste) está a cerca de 5 quilómetros da cabeça do município e a 8 da costa. Hoje as indústrias são outras: múltiplas e diversificadas.
Possuindo cerca de 160 quilómetros quadrados de área territorial (66 são área urbana), distribuídos por oito freguesias (Arada, Cortegaça, Esmoriz, Maceda, Ovar, S. Vicente de Pereira, S. João e Válega), o concelho é limitado pelos municípios de Espinho (a norte), Feira e Oliveira de Azeméis (a nascente), Estarreja (a sul), e Oceano Atlântico (a poente).Na região de turismo da Rota da Luz (Costa de Prata), região predominantemente verde com efectiva ligação ao mar, os braços da ria que sobe do sul (Aveiro) se dão fertilidade aos campos, conferem rara beleza às várzeas a perder de vista, onde a água (omnipresente) é elemento inseparável da topografia e da paisagem.

Actividade económica

A agricultura intensiva (agropecuária), na generalidade mecanizada, foi durante muitos anos a principal fonte de riqueza de grande parte da população vareira, mantendo pleno emprego, sobretudo mão-de-obra feminina. Aliás, a mulher é subsidiária e contribuinte importante da receita (ou economia) doméstica, enquanto o chefe de família se ocupa no comércio ou indústria (por conta própria ou de outrem) ou em subsectores económicos ou produtivos dependentes do primário. A produção leiteira é das mais importantes do país e graças à abundância (e diversidade) de forraginosas (que abastecem significativos efectivos pecuários) a produção de carne de bovino é notável e de excelente qualidade. 

Uma cena rural em Ovar
Os níveis de emprego são animadores dada a heterogeneidade de actividade (e unidades) produtivas, desde os lacticínios à moagem, descasque de arroz, e madeiras (exploração florestal de Esmoriz ao Furadouro). O sector industrial (pesado) instalou-se há cerca de 30 anos (fábrica de aços, motores eléctricos, cordoaria e alcatifas (Esmoriz) e montagem de veículos automóveis (Arada). As zonas industriais (Ovar e Esmoriz) concentram mais unidades do seu tecido produtivo de que destacamos as alimentares, rações, papel, confecções e pré-fabricados. O secundário comandava (1980) os activos com cerca de 60 por cento e, em segundo lugar, o comércio e serviços com 30 por cento.

Rodo e ferrovias – motores do progresso

A estrada nacional 109 (Porto-Aveiro) e a linha de caminho de ferro com estações (sede, Cortegaça e Esmoriz) e apeadeiros (Maceda e Válega) foram grandes motores do crescimento e desenvolvimento da região. A via circular ou variante da referida EN (com passagem superior sobre a linha férrea) veio solucionar substancialmente estrangulamentos de tráfego, sobretudo no acesso àquela rodovia e vice-versa. A auto-estrada (A1) Porto-Lisboa tem nó de ligação à 109, colocando Ovar a cerca de 40 quilómetros do Porto e a 35 da capital do distrito (Aveiro).
O moderno IC1, já construído desde Arada a Espinho, é outro elemento de progresso.
A restante rede viária (municipal) pode considerar-se razoável.

Património (vareiro) concelhio

Para além das paisagens, sobretudo das praias do Areinho, Furadouro, Esmoriz (e sua Barrinha) e Cortegaça (património ambiental), o cais da Ribeira (outrora exportador de sal), e o Buçaquinho (Cortegaça), o acervo monumental (construído) da cidade tem significativa expressão, sobretudo religiosa.
A Igreja Matriz (séc. XVII, remodelada no seguinte) é de três naves e possui boas talhas de diferentes estilos. Admire-se o presépio de Teixeira Lopes (pai).
As capelas dos Passos (distribuídas pela cidade) são dos meados do século XVIII e constituem belo e rico conjunto de cinco graciosos “nichos” que encerram retábulos da Paixão, e uma capela (do Pretório) com ricas talhas barrocas.


Capela da Sr.ª da Graça (fins do século passado), construída sobre alicerces doutra, aproveitou o arco triunfal (e arcos colaterais): o retábulo maior é do último terço de seiscentos. As capelas das Almas e de Santo António merecem também referência.
Quanto a arquitectura civil relevem-se: fachada do edifício dos Paços do Concelho (estrutura neoclássica); Chafariz de Neptuno (Largo Família Soares Pinto) e a Rua Cândido dos Reis com belas e expressivas fachadas. Os painéis de azulejos etnográficos da estação do caminho-de-ferro (metade dos quais no Museu de Ovar), completam esta mostra do roteiro da cidade que conservou a casa onde viveu Júlio Dinis.
O Museu Etnográfico (não municipal, e de iniciativa particular) merece instalações condignas e adequadas.
Das artes tradicionais subsistem tanoaria (Esmoriz) e pirotecnia (Arada); na gastronomia (arte por excelência de bom gosto) o tradicional Pão-de-Ló, regueifa doce, bolo com canela e padas (pão de trigo).

Colectividades culturais, desportivas e recreativas

É o primeiro concelho do distrito em Associações, o que equivale dizer da significativa actividade cultural, (desportiva e recreativa), da juventude vareira. Vários ranchos folclóricos (com nomes como As Tricanas e Os Moliceiros de Ovar), Orfeão de Ovar (1921), Banda Filarmónica Ovarense (1811) e Sociedade Musical Boa União (1889): Associação Desportiva Ovarense e seu honroso historial desde 1921, sobretudo a nível da secção de basquetebol, e finalmente o Esmoriz Ginásio Clube, um dos mais prestigiados do país na modalidade de voleibol!

Festas e Romarias


Os Reis (com suas Trupes), que pretendem ser continuidade da tradição da quadra natalícia, têm lugar de 2 a 6 de Janeiro, pelas ruas da cidade; o Carnaval de Ovar é cartaz sobejamente conhecido em todo o país, contando com ampla participação popular, as festividades religiosas da Semana Santa, particularmente concorridas e participadas pelos fiéis, destacam-se a Procissão dos Terceiros (2.º domingo da Quaresma, com tradições da segunda metade do séc. XVIII, incorporando 14 andores), a dos Passos (4.º domingo da Quaresma), e a Procissão dos Fogaréus na noite de quinta-feira santa (com matracas e fogaréus), que remontam à mesma época; romaria à Sr.ª de Entreáguas, a 2 de Fevereiro; festas de Santo António, a 13 de Junho; S. Lázaro (Arada), domingo anterior aos Ramos; Sr.ª do Desterro (mesma localidade, no domingo e segunda-feira de Pascoela); Sr.ª da Cardia (Cimo de Vila, último domingo de Maio); Srª da Nazaré (Festas do Mar), em Cortegaça (1.º domingo de Setembro); Sr.ª do Amparo (Válega), 15 de Agosto, com a participação dos emigrantes; Sr.ª da Boa Viagem (Torrão do Lameiro), muito concorrida, no domingo seguinte a 26 de Agosto; Sr.ª das Febres (Gondesende-Esmoriz), 1.º domingo de Julho, e Santa Catarina (Ribeira), finais de Novembro, a encerrar o ciclo das tomarias da região.


Fotos: jornalista Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JULHO DE 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/06/ovar-do-azulejo-do-po-de-l-e-do.html

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