13.5.08

“Não te esqueças das morcelas!” – As irmãs “Zulmiro"

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2003)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Na década de 30, vinham muitos vareiros residentes em Lisboa passar as férias de Verão em Ovar. Ainda se vivia muito das fragatas.
Muitos desses nossos conterrâneos traziam consigo a incumbência de, no regresso, levarem uma determinada quantidade de morcelas que as irmãs “Zulmiro” preparavam a primor. Quem alguma vez as provava jamais esquecia o seu inigualável sabor, uma verdadeira especialidade, mesmo requintada, podemos dizer.
Mas não eram só as morcelas que despertavam a gula das pessoas que sabiam distinguir o que tinha qualidade. Também os rojões e os salpicões eram disputados.Mas historiemos um pouco: Talvez no início do século XX, um casal (Alice Amélia e Zulmiro Rodrigues dos Santos) e as suas quatro filhas, ainda meninas, vieram de Oliveira de Azeméis para Ovar, donde nunca mais saíram. O pai encontrou emprego, como carregador, na nossa estação dos CF. A mãe, doméstica, veio a falecer ainda nova, deixando as quatro filhas em situação precária. Para carregar de negro o cenário do modesto agregado familiar, o pai também se finou pouco tempo depois.
Às referidas meninas, transformadas, mais tarde, em senhoras muito respeitáveis, valeu-lhes uma tia, Margarida Tavares, irmã da mãe, que tinha um modestíssimo estabelecimento no mercado, então situado no local onde está hoje o Palácio da Justiça. Essa “barraca”, chamemos-lhe assim, onde vendia cereais, utilizando medidas de madeira, muito em uso nesse tempo, passou-a ela às pequenas, que ali montaram um pequeno talho – também modestíssimo, como se pode calcular –, enquanto ela passou a fazer o seu negócio de cereais no desconfortável chão do mercado, mesmo em frente das sobrinhas.
Isto é o que se poderá chamar solidariedade no mais alto grau. Difícil será imaginar como, sem este precioso auxílio, poderiam aquelas jovens ter encontrado uma solução razoável para o seu drama familiar.
Com a ajuda da tia, as quatro irmãs “Zulmiro” – Alice Amélia, Maria, (Quinhas) Grácia e Palmira – deram muito boa conta do recado, criando nome e prestígio no ramo de actividade a que se dedicaram, constituindo isso a forma mais digna de honrarem a memória de quem tanto se sacrificou por elas.
Moraram sempre na Rua Marquês de Pombal, numa casa pegada à fábrica de descasque de arroz da firma Bonifácio & Filhos, Ld.ª, sendo a mais velha, a Alice Amélia, a última ali residente.

As irmãs Zulmiro com familiares e pessoas amigas da Família Teixeira de Pinho, no Furadouro.
Em cima: Rosa Amélia Pinho, Palmira de Jesus Teixeira Lopes, Amélia Tavares, e as irmãs Alice Amélia, Palmira e Grácia dos Santos.
Em baixo: José Teixeira de Pinho e filha Maria Clara de Jesus; Maria Angelina dos Santos (Marquinhas); Alfredo Tavares (filho da Amélia Tavares); Olívia (cunhada da Amélia Tavares, da Póvoa do Varzim) e Maria Amélia Pinho (filha de Lúcinda Tavares).
O palheirão, o barco e a bateira pertenciam à companha do Valente.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE AGOSTO DE 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-172.html

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