24.5.08

Duriense em terras vareiras

Homenagem a Almeida Fernandes

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1994)
TEXTO: J. Gonçalves Monteiro

A. de Almeida Fernandes
“João Semana” tem o prazer de apresentar um artigo de J. Gonçalves Monteiro, da Régua, autor de uma série de obras monográficas e de dois livros de poemas (“Palavras do Avesso” – Braga, 1969 e “Verde é o Sangue”, Porto, 1991), e dedicado colaborador da imprensa regional.
Ao enviar-nos o saboroso “apontamento de viagem” que publicamos, confessa-se «apaixonado da região vareira e defensor da geminação (efectuada) entre OVAR e a RÉGUA, na linha de pensamento do saudoso Amigo João de Araújo Correia», linha essa que retomou na imprensa local da Régua em 1990 e de que o “João Semana” se fez eco (n.os de 1/2/90 e 1/3/90).
Com o pedido de desculpas a J. Gonçalves Monteiro e à pessoa a seguir visada, mas achando tratar-se de uma referência extremamente sincera e justa – o autor chama-lhe “desabafo” –, não podemos deixar de transcrever esta preciosa achega relativa a um dos nossos mais ilustres e fiéis colunistas, achega que inteiramente subscrevemos.


“Tenho acompanhado com o maior interesse a colaboração dum Amigo e grande intelectual que muito admiro e respeito: o Dr. Armando de Almeida Fernandes, um dos maiores medievalistas da Península, infelizmente pouco conhecido (e avaliado) no seu (nosso) País. Um dia ser-lhe-ão feitas todas as homenagens (e elogios) que merece. Até o município de Tarouca (tenho a certeza) não esquecerá um monumento (busto ou estátua).
Infelizmente, é assim neste país. Os grandes homens (e intelectuais) só são homenageados depois de morrerem”.
No último Verão escolhi Ovar para retemperar energias.
Apaixonado da terra portuguesa ainda não compreendi porque compatriotas preferem veranear no Algarve e, muito menos, no estrangeiro. O País é pequeno, mas singularmente belo. No século das velocidades (idade da luz) preferimos as vias rápidas, deixando antigos itinerários que, se oferecem várias incomodidades permitem desligar o motor, sair do carro, deixar os olhos e a alma embriagarem-se de paisagens saudáveis, sempre insólitas, e fotografar aquilo que faz parte da identidade e memória de um Povo.
Ovar (cidade e região) esteve ligada ao meu imaginário desde criança, apesar da relativa distância em relação ao espaço geográfico onde nasci. O rio Douro era via de comunicação privilegiada entre Ovar e o vale do mesmo nome do grande rio ibérico. Costa atlântica e barra do Douro eram (nesse tempo) elos de ligação entre Ovar (e suas realidades) e o nosso convívio.

Quem pode esquecer a saborosa sardinha escochada, de barrica, sardinha que sabia a mar quando o mar era mar. Mar daqui a pouco cemitério radioactivo da nossa incúria ou da civilização da nossa morte.
Pois bem. O ano passado fui conhecer melhor Ovar, pela estrada nacional 109, um hino à paisagem e, em certos sítios, ao mar. Não sei como era Ovar há décadas atrás, mas adivinha-se, em certas ruas e recantos com carácter e nalguns restos de outros tempos. Da arquitectura vareira pouco ou quase nada restará, a não ser molduras de granito em casas humildes, fachadas do princípio do século, varandas, ferros forjados e platibandas de cerâmica em residências de dois pisos, volumetrias humanizadas, distintas, eruditas. Ainda pude admirar (e fotografar) graciosos frisos de arte nova em azulejos policromos. Outra arte, outros gostos.

Homem e mulher d'Ovar
 
Os templos (igrejas e capelas), frontarias e interiores, evidenciam a religiosidade da nossa gente e a nostalgia (e tradição) da cerâmica. Nalguns enxertos ou remodelações, há-os sem nenhum carácter nem a-propósito, nem beleza. A introdução de materiais exóticos que nada tenham a ver com a tradição local (por exemplo, mármores) devem ser banidos dos interiores dos templos vareiros.Mas encontrei outro tipo de cultura com sabor (e saber) de outros tempos: a gastronomia local, património multissecular que se apoiou, essencialmente, nos recursos do mar. Estou a falar de caldeiradas de peixe. Enguias, quase só por encomenda.Da doçaria tradicional surpreendeu-me a requintada qualidade do pão-de-ló de Ovar, diferente na forma e sabor dos seus congéneres mais a norte (Margaride, no concelho de Felgueiras, por exemplo). Ovos e açúcar (gemas moles) e um certo segredo fazem a diferença. Até a embalagem graciosa parece torná-lo mais suave e macio.
O pão de milho é excelente, padas a sair do forno, bolo com cheiro e sabor a canela, e regueifas doces são especialidades típicas das padarias da região que desconhecia. Suculenta e pastoril, a reflectir recursos da agropecuária, a deliciosa carne de vitela não fica a dever nada à de Lafões.
Ovar é uma região encantadora, de gente extremamente afável.
Só não gostei dos foguetes (e morteiros) às 5 ou 6 horas da manhã do próprio dia das romarias. Pelos vistos, é hábito desta região.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MARÇO DE 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/duriense-em-terras-vareiras-texto-j.html

2 comentários:

J. Gonçalves disse...

Senhor Jornalista Dr.Fernando Pinto

Venho agradecer a generosa simpatia com que se refere ao m/singelo texto de viagem por terras vareiras, e intitulado "Duriense em terras vareiras",publicado em "Joao Semana".
Nao sou da Regua (colaborei em O Arrais)mas tenho segunda residência em casa de m/ mulher, em Armamar (Alto Douro Vinhateiro)
muito perto da Régua).
Se tiver a bondade de indicar a sua residência terei muito gosto em enviar-lhe a m/ 2ª"monografia" sobre Armamar,editada pela CM em 1999 (392 ps,ilustrada)
Felicidades,parabéns pelo Blog, e um Bom Ano em tudo.
Com estima- J. Goncalves Monteiro

Fernando Pinto disse...

Peço-lhe que me envie um e-mail para fernandomopinto@gmail.com para lhe enviar a minha morada de Ovar. Obrigado!

Bom Ano também para si!