4.5.08

As Sachadeiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2004)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Com o aproximar do Verão, vêm-me à lembrança as sachadeiras que, no tempo quente, há uns anos atrás, passavam pelas ruas da nossa cidade trazendo às costas as ferramentas do trabalho: sachos e enxadas. Quase sempre em grupos, vinham das nossas aldeias mal o sol rompia no horizonte e quando o dia era ainda uma criança.
Chamavam-lhes, aqui em Ovar, as Marias de Arada, talvez por grande parte delas provir dessa nossa freguesia.
Contou-me uma lavradeira de provecta idade que, no seu tempo (princípio do séc. XX), as sachadeiras vinham das aldeias e das zonas rurais de Ovar para o Mercado – ou praça, como então lhe chamavam –, junto da Câmara, para aí serem contratadas por quem necessitasse dos seus serviços.


As sachadeiras
Era um trabalho sazonal, que apenas durava alguns dias, no chamado tempo da sacha.
Por entre o milho e outras culturas, sachavam a terra manualmente, removendo-a, tornando-a mais fofa e destruindo as ervas daninhas.
À tardinha, quando o astro-rei começava a esconder-se no mar e a Terra ficava iluminada pelo crepúsculo, era muito bonito vê-las passar de volta, depois de um dia de trabalho árduo, cantando a várias vozes, num tom harmonioso, como se de um coro orfeónico se tratasse.
Muitas vezes, os rapazes da época, levados pela sua juventude impetuosa, lançavam-lhes alguns piropos, a que elas respondiam com a sua piada brejeira, continuando a seguir o seu percurso, sempre a cantar…
Aquelas vozes ainda hoje parecem chegarem aos meus ouvidos, trazidas pelo vento.
E dos versos que cantavam ainda retenho alguns na minha memória, como estes que aprendíamos nos livros da escola: “Indo um lavrador p’ra Arada, ai Jesus / Encontrou um pobrezinho, ai Jesus!”, cujo poema continuava, descrevendo uma velha lenda, ou como aqueloutro que lembrava os canários com penas muito bonitas, fazendo inveja àquelas mulheres do campo: “Canário, lindo canário! / Canário, meu lindo bem. / Quem me dera ter as penas / Que o lindo canário tem!...” Estes versos, cantados a várias vozes, misturadas com o piar das aves que, na época, costumavam cruzar os céus, eram encantadores!...
Pouco a pouco, o trabalho das sachadeiras deixou de ser feito de forma manual, sendo o sacho e a enxada substituídos pelas máquinas, que não têm alma nem poesia.
Quem as viu sachar, em grupos, as terras cultivadas, até ao pôr-do-sol, e passar pelas ruas a cantar melodiosas cantigas que o vento arrastava para longe, hoje, ao recordá-las, sente saudade!...


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 2004) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/as-sachadeiras-texto-jos-de-oliveira.html

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