21.4.08

Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (IV)

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1988)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Fazem parte do caderno de documentos a que nos vimos reportando, uns «Apontamentos para a Capella do Santíssimo Sacram.to da Igreja da Villa de Ovar», em 15 números ou artigos, assinados por Manoel Lourenço Afonso, certamente o mestre de obras encarregado da construção.
Vamos citar, resumidamente, esses artigos:
1.º – Terá a Capela 20 palmos de comprimento e 20 de largura, medidos por dentro, e «hum degrau no Arco como o da Capella do Paço e o arco do m.mo feitio como o do Paço».
2.º – Será toda lageada com pedras «d’Aguncide bem lavrada» de palmo e meio em quadro.
3.º – Terá 3 degraus de 5 polegadas de altura com seu brocel e palmo e meio de passo (= largura), e «todo o presvitério será lageado como a Capella».
4.º – Terá uma sapata em volta «a sacar fora das paredes…»
5.º – Sobre isto assentará a base do pedestal de cada pilastra. Entre cada pedestal com sua cornija levará cantaria, e «para mostrar-se o almofadado, este pedestal será da altura da banqueta do altar». 6.º – Sobre os pedestais assentarão as pilastras com sua base e capitel, e meias canas; e o capitel «irá receber o entablamento, arquitrava, friso e cornija».
7.º – Os alicerces terão 8 palmos de altura e 5 de grossura até à sapata, e 4 daí para cima. A parede onde se há-de formar o Arco «hade alinhar com a nova parede que se hade fazer para a Igreja», deixando de fora uns aguilhões desvastados de cantaria «para se introduzirem na nova parede», do lado poente. Na parte Nascente, será desmanchado o cunhal da Igreja próximo ao altar de N.ª S.ª do Rosário, «e ligada aquella parede com a da nova Capella».
8.º – No exterior levará uma sapata de cantaria que receberá uma faixa de 4 palmos de altura «reçaltiando nos cunhaes que deve levar a m.ma Capella» (…)
9.º – A empena será coberta de cantaria «como a da Capella Mor com huma crus em sima e duas piramidees sobre os cunhaes», e na mesma altura que a dos Passos.
10.º – Toda cantaria deve ser «das pedreiras d’Agoncida», sem o mínimo defeito, e as paredes de «bom gramaço de cal e area». O Inspector marcará o sítio do «almario para receber a Tribuna».
11.º – Trata do madeiramento do tecto e forro com «bons frichaes de carvalho ou castanho, barrotes de castanho»…
12.º – «No meio desta armação haverá um óculo redondo», e por cima da sua faicha terá hum brandeo de balaústres de castanho torniados e intalhados bem executados com o mimo que se faz no Porto».
13.º – Atrás daquele «brandeo haverá um apilastrado com 8 pilastras em circunferência e caixilhos com vidros entre as mesmas. A cúpula do óculo será «de bons barrotes e frechaes de castanho» e terá «um lanternim de bronze para a Alampeda» (…)
14.º – Os telhados serão «dobrados e bem amouriscados com as passadeiras percizas para a clarabóia» e a telha será da melhor.
15.º – Da cornija ao óculo será cambutada e forrada de castanho para receber os ornatos, ou fasqueada de pinho se for para receber estuque.
Segundo um documento deste processo, custou 38 mil reis a colocação dos vidros e redes de arame nas frestas da Capela do SS.mo e o arranjo da «Casa do relógio» (soalho, tapamento do Sul e do Nascente, duas portas novas, uma «coberta em sima do relógio em razão da agoa, a verter para os lados», e um tapamento por onde descem os pesos).
Acompanha estes documentos, anteriores a 1834, um desenho muito pormenorizado do altar do Santíssimo Sacramento, só divergente do definitivo por ter uma cúpula e um pelicano sobre o Sacrário, peças que foram tiradas para a colocação das actuais imagens.
Num documento de 31-8-1836, o Secretário da Câmara, Salvador José da Silva Lima faz entrega dos «livros, autos e chave do cofre pertencentes à Igreja Matriz desta Villa» ao Comissário de Paróquia, Francisco de Oliveira Baptista.
Ali se citam:

«Hum L.º de Entradas dos pagamentos do Real no Cofre, e contas tomadas ao mesmo», com 40 folhas escritas;
«Hum dito de sahidas dos pagamentos do mesmo Cofre, e contas», com 42 folhas escritas;
«Huns autos de Vistoria, e Rematação da obra da Capella do Santíssimo Sacramento da Villa d’Ovar, e mais obras competentes à Igreja da mesma Villa», com 147 folhas escritas e mais 17 em apenso; um recibo do rematante António José da Silva e «sete riscos incluídos no apenso pertencentes às mesmas obras da Igreja»;
«Ditos de Rematação do Real aplicado para as obras, com 103 folhas escritas;
«Ditos do Cofre do Real da Igreja como Autor, com a ré Luísa Maria, viúva de António Ferreira, da Praça d’Ovar», e um apenso com um documento de partilhas do Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães.
CAPELA DO SANTÍSSIMO, LADO DIREITO DA IGREJA MATRIZ DE OVAR










O altar do Santíssimo Sacramento foi privilegiado pelo Papa Clemente XIII em 24-7-1760, a pedido do Vigário João Bernardino Leite de Sousa. («Memórias e Datas» pág. 159).
Ali se guardou o Santíssimo durante alguns períodos.
Já no século passado o Sacrário passara a Capela-mor.
O portão de ferro, com desenho de Manuel António da Fonseca, da Vila da Feira (2$400 reis), foi executado por Joaquim Manuel de Freitas, de Montinho
(Vila da Feira), custando 96$000

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MARÇO DE 1988) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_5880.html

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