22.3.08

Lembrando as Senhoras Silveiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/1981)
TEXTO: Maria José Vinga

Foi por 1905. Devia eu ter seis anos quando, pela primeira vez, minha mãe me foi vestir de anjo a casa das Senhoras Silveiras, para eu ir na procissão do Senhor dos Passos.
Eram três irmãs solteiras, que habitavam a casa que já tinha sido dos pais, ali no largo do Quartel, onde vestiam anjinhos para festas e dirigiam uma agência funerária. As senhoras deixaram-me muito linda, com um vestido de seda branca e umas asas grandes e brancas nas costas. Creio ter sido por esta razão que eu fiquei a gostar das Silveiras, embora lhes tivesse de sofrer os perdigotos com que me agrediam quando falavam, inconveniente contrabalançado pela amabilidade das suas palavras, dos seus sorrisos e dos seus gestos sempre senhoris, delicados e atenciosos.
Fui crescendo, e comigo crescia também a amizade por D. Maria Luísa, D. Joaninha e D. Hortense. Já eu andava no Colégio e aos domingos ia visitá-las, com consentimento de minha mãe, pois das janelas de sua casa via-se o movimento da vila ou, mais propriamente, da Arruela.
Um dia, disse-me a D. Maria Luísa: – Sabe, quando eu era pequena, Ovar tinha menos gente. Quando se fazia uma festa na rua, não se podia fazer nada na Igreja. Mas agora há gente que chega para tudo: Igreja; cinema, cafés, jogo da bola. E tudo se enche. Depois que se montaram fábricas, veio gente de toda a parte viver para Ovar, e por cá ficaram para sempre. Nós somos hospitaleiros, mas nem sempre compreendidos.

Um dia, era eu já crescidita, estava à janela entre a D. Hortense e a D. Maria Luísa, quando passou um grupo de rapazes que olharam para cima com modos um tanto atrevidos D. Maria Luísa desviou-se um pouco para dentro, observando: – Sabe, minha querida, um botão de rosa tem o direito de escolher um cravo para a acompanhar na vida, mas é preciso saber escolher! Pois uma menina que esteja habituada a lavar os dentes não deve afeiçoar-se a um moço que não tenha esse hábito. Pois quando os hábitos e educação são semelhantes, há melhor compreensão, melhor ajustamento.
Sábios e santos conselhos, que ainda hoje são bem actuais!... (Que pena eu tenho de não os poder transmitir a todas as meninas de 16 anos do mundo inteiro!)
Estas boas senhoras deram na minha educação um toque subtil que eu jamais esqueci.
As Silveiras tinham mais três irmãs, que se chamavam D. Maria Mafalda, D. Estefânia e D. Hermínia, todas casadas, as primeiras com escrivães de Direito, e a última com o sr. Abreu, inspector dos caminhos-de-ferro. Este último casal tinha duas filhas que eram minhas colegas e grandes amigas.
Conheci também o único irmão das Silveiras. Era o sr. Isaque, farmacêutico, dono da farmácia das pontes, na Senhora da Graça, onde eu ia muitas vezes aviar receitas para a minha família.
Quando ficou viúvo, o sr. Isaque acabou com a farmácia e foi viver para a Quinta das Luzes, que tinha sido do avô paterno.
Toda esta boa gente – seis meninas e um rapaz – era herdeira de um nome célebre. Seu pai era o Dr. João José da Silveira, a quem o grande escritor Júlio Dinis imortalizou com o nome de “João Semana” no romance “As Pupilas do Senhor Reitor”, onde é apresentado como modelo do médico trabalhador e paciente. O Dr. Silveira foi, de facto, um benfeitor dos pobres, que o adoravam. Diariamente, à tarde, ia, a cavalo, visitar os seus doentes. Nas tardes de mais calor levava, aberto, um grande guarda-sol branco. Por casualidade, a montada era da mesma cor, pelo que chamavam o “João da burra branca” ao criado – um rapazito – que o acompanhava para tomar conta da azémola, nome que ele conservou até morrer.
E fico-me por aqui nesta peregrinação pelo meu passado.Casa das Silveiras no Largo do Quartel
Nesta casa residiu, depois do casamento, o Dr. João José da Silveira (o “João Semana” das Pupilas), que ali tinha o seu consultório, bem como sua esposa, D. Maria Luísa da Fonseca, e seus filhos Mafalda, Hortense, Hermínia, Isaque Júlio, Manuel Maria (falecido novo), Estefânia, Maria Luísa e Joana.

Casa onde residiu o Dr. João José da Silveira, o "João Semana" das Pupilas
No rés-do-chão do prédio, e já depois da morte do Dr. João Semana, as Senhoras Silveiras, que eram modistas, montaram um novo comércio – uma agência funerária (com porta para o caminho que dá para as Luzes), e alugaram outra parte a João Mendonça, que ali instalou uma oficina de sapataria manual e uma barbearia (esta última bem identificada na gravura).
Esta casa, verdadeiramente histórica, por ter sido a segunda casa do Dr. João Semana – a primeira foi a Quinta das Luzes, onde nasceu e viveu a mocidade estudantil –, veio a ser demolida em 1958, após ter sido vendida (1956) pelos herdeiros sobreviventes. Uma terça parte (pertencente às filhas solteiras) ficou para a criada Augusta, que passou a viver numa pequena habitação anexa (também visível na gravura) que, felizmente, ainda se conserva.
Chamamos a atenção dos leitores para o jardim dos Combatentes (do muro para cá) e para a estrada da Arruela, por onde passava grande parte do movimento da vila.
Resta acrescentar que a feliz criança que posou para a posteridade, acompanhando a já demolida casa das Silveiras, é o Dr. Joseph Fernando Pinho Cruz, residente em Elizabeth, nos Estados Unidos, a quem cumprimentamos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JULHO DE 1981)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/03/prole-de-joo-semana-lembrando-as.html


ADENDA ----------------------------

Três das filhas, as que mencionámos primeiro, casaram fora. As outras são as personagens evocadas hoje por D. Maria José Vinga e que ficaram solteiras na casa natal. O Isaque, farmacêutico, viveu na Quinta das Luzes, que fora de seu avô paterno, e que lhe foi deixada por seus tios Manuel e Margarida Silveira, que lá faleceram solteiros. O Manuel Maria faleceu novo, vítima da tuberculose, quando estudava medicina.

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